{"id":86,"date":"2020-05-08T14:10:28","date_gmt":"2020-05-08T17:10:28","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/?page_id=86"},"modified":"2020-06-08T06:18:37","modified_gmt":"2020-06-08T09:18:37","slug":"relatos-tecnopobres","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/relatos-tecnopobres\/","title":{"rendered":"Relatos tecnopobres"},"content":{"rendered":"\n<h3><strong>Relatos de uma curadoria provis\u00f3ria, por K\u00eania Freitas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Como assistir aos filmes em meio a essa pandemia? A minha cabe\u00e7a parece vagar entre esse conjunto de imagens e sons muitas vezes se perdendo em pensamentos outros &#8211; a doen\u00e7a, a necropol\u00edtica, as mortes, o futuro incerto. Ansiedade e paranoia e algumas tentativas de luto. E os filmes continuam ali, passando\u2026 &#8211; como devem.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota Momba\u00e7a tem um texto em que fala da &#8220;Par\u00e1bola do Semeador&#8221; (Octavia Butler) chamado &#8220;Lauren Olamina e eu nos port\u00f5es do fim do mundo&#8221; (2016). Nas par\u00e1bolas (do Semeador e dos talentos), Lauren Olamina (a quem Momba\u00e7a se junta nos port\u00f5es do imposs\u00edvel) \u00e9 uma mulher negra diante do apocalipse (econ\u00f4mico, ambiental, social) buscando n\u00e3o apenas sobreviver ao presente catastr\u00f3fico, mas criar ra\u00edzes entre as estrelas como um plano de futuro. Penso que Butler sabe das coisas e fico procurando essas estrelas e ra\u00edzes.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 Momba\u00e7a em seu portal, nesse texto, ela lan\u00e7a uma defini\u00e7\u00e3o que tem me acompanhado cada vez mais: a de um pessimismo vivo: &#8220;capaz de refazer indefinidamente as pr\u00f3prias cartografias da cat\u00e1strofe, com aten\u00e7\u00e3o aos deslocamentos de for\u00e7as, aos reposicionamentos e coreografias do poder. No limite, falo de um pessimismo que \u00e9 nada mais que um estudo, no sentido trazido aqui a partir de Moten e Harney: um plano de fuga&#8221; (Momba\u00e7a, 2016: 48). Um pessimismo vivo que n\u00e3o \u00e9 desist\u00eancia, mas plano de fuga.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que me inquieta \u00e9 justamente essa necessidade de seguir, de tra\u00e7ar estudos e rotas de fugas diante do cen\u00e1rio atual. Se \u00e9 necess\u00e1rio acabar o mundo como n\u00f3s conhecemos para recome\u00e7ar o mundo (como a Denise Ferreira da Silva sugere e eu acredito), como a gente passa por esse fim do mundo? O cinema e as suas imagens e sons d\u00e3o conta disso? Deveriam dar?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, s\u00f3 posso dizer que n\u00e3o sei. E lembrar novamente das palavras das par\u00e1bolas de Butler: \u201cPara ressurgir das pr\u00f3prias cinzas uma f\u00eanix deve primeiro queimar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei brevemente aos filmes inscritos para o CachoeiraDoc esses dias, a partir da provoca\u00e7\u00e3o dessa curadoria provis\u00f3ria nesse festival imposs\u00edvel. Voltei de forma bem err\u00e1tica, pescando coisas ali e aqui que pulsavam diferente &#8211; a cabe\u00e7a vagando e os filmes que passam (ainda bem!). Como apontava as impress\u00f5es coletivas, reencontrei ali de fato muitos filmes que se dirigem a um passado pr\u00f3ximo de golpes parlamentares-midi\u00e1ticos e resultados de uma elei\u00e7\u00e3o ainda inconsol\u00e1vel. Um passado t\u00e3o recente e tamb\u00e9m j\u00e1 incrivelmente distante em desejos e anseios desse agora. Isso me parece mais culpa do tempo trai\u00e7oeiro, do que dos filmes. Os filmes passam e, \u00e0s vezes, a gente n\u00e3o consegue v\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Consegui enxerg\u00e1-los um pouco mais procurando as tais ra\u00edzes entre estrelas ou algumas cartas do futuro &#8211; talvez at\u00e9 melhor falar em cartas de depois do futuro, para retomar a ideia do Franco &#8220;Bifo&#8221; Berardi para isso que vir\u00e1 e a gente n\u00e3o consegue ainda vislumbrar diante da nossa aus\u00eancia de imagina\u00e7\u00e3o e perspectiva. Umas imagens e sons que me parecem endere\u00e7ados para estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia e de cura para nossos incertos tempos vindouros.<\/p>\n\n\n\n<p>Falo aqui de filmes como: &#8220;O arco do tempo&#8221;, do Juan Rodrigues (que nos grita que n\u00e3o estamos sozinhos de algum lugar do espa\u00e7o), &#8220;Lembrar daquilo que esqueci&#8221; da Castiel Vitorino (que nos prepara para a cura) ou mesmo o j\u00e1 t\u00e3o viajado intergalaticamente &#8220;Negrum3&#8221;, do Diego Paulino (com Aretha Sadick chegando na nave de Sun Ra para nos fazer mover para al\u00e9m).<\/p>\n\n\n\n<p>Para essa conversa, permeada de impossibilidades e provisoriedades, eu acabei cismando com o filme de guerrilha &#8220;Relatos Tecnopobres&#8221; de Jo\u00e3o Batista Silva. Essa fic\u00e7\u00e3o especulativa em si tecnopobre que parece cada vez mais um document\u00e1rio do nosso presente. Com o filme gostaria de pensar junto sobre como forjar &#8211; no poss\u00edvel e no imposs\u00edvel &#8211; essas estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia e de vida, amparadas por esse pessimismo vivo que nos guia. Buscando para agora formas de ver\/rever\/desver o cinema com suas imagens e sons que passam.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"632\" height=\"353\" src=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/relato.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-497\" srcset=\"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/relato.png 632w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/relato-300x168.png 300w\" sizes=\"(max-width: 632px) 100vw, 632px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3><strong>Relatos Tecnopobres (Goi\u00e1s, 2019, 13 min.)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dire\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Batista Silva &#8211; joaobatista.cinema@gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p>Sinopse: Ap\u00f3s o apocalipse pol\u00edtico de 2019 graves viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos foram cometidas contra as popula\u00e7\u00f5es tradicionais e perif\u00e9ricas visando \u00e0 sua extin\u00e7\u00e3o. Em 2035 os sobreviventes lutam pelo direito de viver e articulam uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatos de uma curadoria provis\u00f3ria, por K\u00eania Freitas Como assistir aos filmes em meio a essa pandemia? A minha cabe\u00e7a parece vagar entre esse conjunto de imagens e sons muitas vezes se perdendo em pensamentos outros &#8211; a doen\u00e7a, a necropol\u00edtica, as mortes, o futuro incerto. Ansiedade e paranoia e algumas tentativas de luto. 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