{"id":76,"date":"2020-05-08T13:51:08","date_gmt":"2020-05-08T16:51:08","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/?page_id=76"},"modified":"2020-06-08T06:20:25","modified_gmt":"2020-06-08T09:20:25","slug":"teko-haxy-new-york","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/teko-haxy-new-york\/","title":{"rendered":"New York, just another city + Teko Haxy &#8211; ser imperfeita"},"content":{"rendered":"\n<h3>De limbos e sa\u00eddas, por Patr\u00edcia Mour\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>If there was ever a festival in limbo it would be called \u201cOblivion\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Robert Smithson, 1971<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 sessenta dias toda minha experi\u00eancia visual do mundo externo chega-me a partir de um movimento m\u00ednimo, de n\u00e3o mais de 45\u00ba, no eixo do meu olhar: da tela do computador ou celular para a janela, atr\u00e1s da qual uma fileira de pr\u00e9dios, repletos de outras janelas, parecem-me, passados dois meses, um espelho do meu lado da rua \u2013 talvez seja&nbsp; meu eu-felino quem eu veja toda manh\u00e3 a tomar sol sobre uma m\u00e1quina de lavar, \u00e0s 9h45, quando o sol matinal bate anguloso no pr\u00e9dio da frente. Minha exist\u00eancia foi reduzida aos gestos m\u00ednimos \u2013 do olhar, para cima e para baixo; dos dedos, digitando, clicando, deslizando pela pele da tela. Estou no limbo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o limbo n\u00e3o come\u00e7ou dia 16 de mar\u00e7o. Esse (ou dia 24, para alguns) foi apenas o dia em que rel\u00f3gios biol\u00f3gicos individuais foram regulados e passaram a viver no mesmo ritmo e pulsa\u00e7\u00e3o do limbo. O dia em que a minha imobilidade coincidiu com a de muitos. Mas j\u00e1 est\u00e1vamos no limbo h\u00e1 bastante tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O limbo n\u00e3o tem sa\u00edda \u2013 benza Deus a Igreja Cat\u00f3lica o aboliu recentemente. Ele \u00e9 a fronteira tornada mundo, pedra, todo. Ele \u00e9 a experi\u00eancia da fronteira ampliada at\u00e9 que pare\u00e7a n\u00e3o haver mais fora. Mas \u00e9 poss\u00edvel inventar sa\u00eddas. \u00c9 um dever inventar sa\u00eddas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sa\u00edda n\u00e3o \u00e9 um escape. Uma sa\u00edda exige ter os p\u00e9s firmes no ch\u00e3o, exige \u201cficar com o problema\u201d.&nbsp; A barra de rolagem \u00e9 escape. O meu vizinho felino e a angula\u00e7\u00e3o do sol sobre o concreto \u00e9 sa\u00edda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Donna Haraway est\u00e1 aqui. Ela me diz que a tarefa \u00e9 aprender a \u201cficar com o problema de viver e morrer bem, com responsabilidade, em uma terra danificada e um tempo denso\u201d. Ela me diz que ficar com o problema \u00e9 habit\u00e1-lo, \u00e9 estar ficando no presente e n\u00e3o se projetar no futuro. N\u00e3o somos um ponto cego entre um passado ed\u00eanico ou assustador e um futuro salvacionista ou apocal\u00edptico \u2013 \u00e9 o que entendo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Patr\u00edcia Ferreira<em>Par\u00e1 Yxapy<\/em> est\u00e1 aqui. Ela me chega de uma das minhas muitas janelas abertas no computador. Vejo-a andando em Nova York, na Times Square \u2013 na minha lembran\u00e7a, o ponto mais luminoso, acelerado e demograficamente denso daquela cidade. Um lugar onde tudo \u00e9 tela e tudo \u00e9 imagem: as empenas dos pr\u00e9dios, os celulares e c\u00e2meras dos turistas. N\u00e3o consigo imaginar algu\u00e9m parado na Times Square, olhando fixamente para um ponto. Olha-se o fluxo, a passagem das luzes, das imagens, at\u00e9 que se vire imagem e parte do fluxo. Est\u00e1-se ali para ser submerso pelo excesso, para se deixar de ser.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Times Square \u00e9 o meu computador durante a quarentena: um sem n\u00famero de janelas luminosas abertas por onde circulam not\u00edcias sobre o del\u00edrio Brasil, gr\u00e1ficos com a \u201cevolu\u00e7\u00e3o da curva do v\u00edrus\u201d, mensagens de amigos, de familiares, promo\u00e7\u00f5es do rappi, da drogaria, do mercado, do sex shop, textos sobre cogumelos, polvos, algas marinhas, receitas, boletins informativos de exposi\u00e7\u00f5es virtuais. Eventualmente, m\u00fasicas concorrentes e di\u00e1logos em diferentes l\u00ednguas tamb\u00e9m acontecem ao mesmo tempo, sem que eu possa identificar sua fonte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Times Square \u00e9 a barra e rolagem, a s\u00edndrome man\u00edaca de produ\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es, diagn\u00f3sticos e progn\u00f3sticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Times Square \u00e9 o Brasil p\u00f3s 2018: um gif repetindo um trauma, um buraco no tempo, uma ruptura com o devir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Times Square \u00e9 a lacra\u00e7\u00e3o, o grito impotente, o gozo na repeti\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Times Square \u00e9 o limbo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Patr\u00edcia me ajuda e me ensina a buscar a sa\u00edda. Vejo-a na Times Square, filmada por Andr\u00e9 Lopes e Joana Brand\u00e3o. E ent\u00e3o n\u00e3o a vejo mais; ela tem a c\u00e2mera dos realizadores na m\u00e3o. Em quest\u00e3o de segundos, a c\u00e2mera encontra um pombo, desce ao n\u00edvel da cal\u00e7ada e fica com o pombo. H\u00e1 um p\u00e1ssaro na Times Square, indiferente \u00e0 Times Square; e a c\u00e2mera da Patr\u00edcia. Todo o resto s\u00e3o fantasmas, mortos-vivos presos em um espa\u00e7o sem tempo. Menos o pombo e a Patr\u00edcia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seu deslocamento das luzes para o pombo n\u00e3o me parece produto do desespero, tampouco do desprezo. Ele n\u00e3o \u00e9 escape, fuga. \u00c9 sa\u00edda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo-o como consequ\u00eancia de um agu\u00e7amento da aten\u00e7\u00e3o, um enraizamento no presente; movimento de abertura e acolhimento mais do que julgamento ou recusa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cena dura poucos minutos, um instante, uma pequena emerg\u00eancia no filme. Vou em busca de outras imagens da Patr\u00edcia. Encontro-a em outro filme, dessa vez uma co-dire\u00e7\u00e3o. Ela filma a Sophia, enquanto esta chora. Ela a filma de perto, muito de perto; o foco nunca est\u00e1vel, sempre na imin\u00eancia de ser reencontrado ou perdido. Escuto-a rindo da Sofia e de seu choro; um riso amoroso, de desconcerto, impot\u00eancia e piedade, frente \u00e0 jovem cineasta branca, a qual chora suas ang\u00fastias e inseguran\u00e7as \u00e9ticas. \u00c9 uma imagem de intimidade entre duas mulheres, no entanto, apartadas por origens e experi\u00eancias. Patr\u00edcia fala de si, sobre ficar presa a um sentimento de raiva, de \u00f3dio. Fala sobre estar doente, sobre a solid\u00e3o e a impot\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se ela falasse da Times Square.&nbsp; Ela conta sobre ter ficado dois anos sem andar, im\u00f3vel. A mem\u00f3ria da imobilidade transforma-se em ponte. Sofia tamb\u00e9m tem essa mem\u00f3ria. De novo, Patr\u00edcia encontra uma sa\u00edda. N\u00e3o um escape, n\u00e3o uma fuga.&nbsp; Uma sa\u00edda na imobilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso em Patr\u00edcia como um paradigma curatorial em tempos densos, em uma terra devastada. Ela me salva. Com ela aprendo a levantar o olho da janela do computador para as janelas l\u00e1 fora. Com ela aprendo a acompanhar o sol, a encontrar o gato, a me tornar gato. Com ela quero aprender a viver com o problema, a desaceler\u00e1-lo, a sustentar a imobilidade at\u00e9 que seja poss\u00edvel olhar um pouco mais abaixo, um pouco mais acima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/newyork-1200x675-5-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-223\" width=\"548\" height=\"309\" srcset=\"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/newyork-1200x675-5-1024x576.png 1024w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/newyork-1200x675-5-300x169.png 300w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/newyork-1200x675-5-768x432.png 768w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/newyork-1200x675-5.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 548px) 100vw, 548px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3><strong>New York, just another city<\/strong> &nbsp;(S\u00e3o Paulo, 2019, 18 min.)<\/h3>\n\n\n\n<p>Dire\u00e7\u00e3o: Andr\u00e9 Lopes e Joana Brand\u00e3o &#8211; tupxi@usp.br<\/p>\n\n\n\n<p>Sinpose: Jovem lideran\u00e7a e realizadora audiovisual, Patr\u00edcia Ferreira vem sendo reconhecida pelos document\u00e1rios que realiza com o seu povo, os Guarani Mbya. Ao ser chamada para debater seus trabalhos em um dos maiores festivais de cinema etnogr\u00e1ficos do mundo, o Margaret Mead Film Festival, realizado no Museu Americano de Hist\u00f3ria Natural, em Nova Iorque, Patr\u00edcia se depara com uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es, debates e atitudes que a fazem refletir sobre o mundo dos \u201cjuru\u00e1\u201d, contrastando-o com os modos de exist\u00eancia guarani.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/teko-1200x675-2-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-218\" width=\"580\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/teko-1200x675-2-1024x576.png 1024w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/teko-1200x675-2-300x169.png 300w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/teko-1200x675-2-768x432.png 768w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/teko-1200x675-2.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h3><strong>Teko Haxy &#8211; ser imperfeita (Goi\u00e1s, 2018, 39 min.)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dire\u00e7\u00e3o: Patr\u00edcia Ferreira Par\u00e1 Yxapy e Sophia Pinheiro &#8211; sophiaxpinheiro@gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p>Sinopse: Um encontro \u00edntimo entre duas mulheres que se filmam. O document\u00e1rio experimental \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de duas artistas, uma cineasta ind\u00edgena e uma artista visual e antrop\u00f3loga n\u00e3o-ind\u00edgena. Diante da consci\u00eancia da imperfei\u00e7\u00e3o do ser, entram em conflitos e se criam material e espiritualmente. Nesse processo, se descobrem iguais e diferentes na justeza de suas imagens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De limbos e sa\u00eddas, por Patr\u00edcia Mour\u00e3o If there was ever a festival in limbo it would be called \u201cOblivion\u201d Robert Smithson, 1971 H\u00e1 sessenta dias toda minha experi\u00eancia visual do mundo externo chega-me a partir de um movimento m\u00ednimo, de n\u00e3o mais de 45\u00ba, no eixo do meu olhar: da tela do computador ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":341,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/76"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76"}],"version-history":[{"count":26,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/76\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":557,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/76\/revisions\/557"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/341"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festivalimpossivel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}