{"id":7600,"date":"2020-12-20T23:04:32","date_gmt":"2020-12-21T02:04:32","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7600"},"modified":"2020-12-21T20:38:44","modified_gmt":"2020-12-21T23:38:44","slug":"diario-de-bordas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/20\/diario-de-bordas\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de bordas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Alessandra Brito \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Cristina Amaral falou em uma das muitas conversas que tive a alegria de ouvi-la que sonhar \u00e9 um direito humano. Tenho me embriagado dessa palavra SONHO. Ailton Krenak e Beatriz Nascimento tamb\u00e9m falam do sonho, como uma dimens\u00e3o de conhecimento, uma epistemologia. Sonhei intensamente com o mar nestes tempos, profundos mergulhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora envolta nas escritas, me lembrei que em 2019, eu planejei a ida ao Cachoeira Doc (planejar \u00e9 tipo um sonho que a gente anota na agenda e organiza). L\u00e1 nas linhas de maio estava escrito Cachoeira Doc e Vale do Pati. Seriam duas travessias em maio, uma eu guardei para o futuro, a outra agora come\u00e7a. A viagem ser\u00e1 no tempo, na terra e na \u00e1gua. Tr\u00eas travessias assim como s\u00e3o tr\u00eas as margens do rio, como nos assegura Guimar\u00e3es Rosa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Viajar \u00e9 com tudo &#8211; corpo, alma, cora\u00e7\u00e3o &#8211; nem sempre as chegan\u00e7as est\u00e3o sincronizadas, \u00e0s vezes o p\u00e9 chega primeiro que o cora\u00e7\u00e3o, ou o contr\u00e1rio. Escolhi escrever como seria poss\u00edvel, diante do tempo, e das coisas e de tudo que tem parecido imposs\u00edvel. O texto se d\u00e1 como excesso e brevidade, difuso, espelho emba\u00e7ado, mas cachoeira \u00e0 vista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>o&nbsp; dia primeiro, o hoje.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o gosto da chegada vivo na boca, este exerc\u00edcio de escrita passar\u00e1 pelo meu percurso no festival, aqui neste dia \u201choje\u201d a escrita ser\u00e1 junto de <em>(Outros) Fundamentos<\/em>, <em>Irum Or\u00ed<\/em> e <em>O Mundo Preto Tem Mais Vida<\/em>. Em seguida, seguiremos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>duas inquieta\u00e7\u00f5es a partir de <\/strong><strong><em>(Outros) Fundamentos<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira coisa que me chama aten\u00e7\u00e3o nos <em>(Outros) Fundamentos<\/em> (2019) \u00e9 a profus\u00e3o de reflexos. S\u00e3o \u00e1guas, muitas margens, espelhos d\u2019\u00e1gua e espelhos fora d\u2019\u00e1gua. Na multiplicidade de reflexos: c\u00e9u, m\u00e3os, faces, \u00e1gua, pontes, barcos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma lembran\u00e7a: aquelas hist\u00f3rias que nos contavam na escola de que os povos origin\u00e1rios teriam trocado ouro por espelhos e outras quinquilharias oferecidas pelos colonialistas. Uma narrativa comum e que se presta a refor\u00e7ar um imagin\u00e1rio desumanizante sobre os povos ind\u00edgenas do Brasil.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que toda procura \u00e9 fortemente permeada pela busca de si. Mas como fazer dessa busca algo que n\u00e3o seja um desejo de reflexo? Lembrando tamb\u00e9m que \u00e9 a for\u00e7a da luz do reflexo que dificulta ver o vis\u00edvel e at\u00e9 mesmo o invis\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me vejo neles, eles n\u00e3o se v\u00eaem em mim. [&#8230;] Se ao menos soubessem, se soubessem que estavam num navio comigo, quando me obrigaram a partir. Eles estavam no avi\u00e3o comigo, quando eu voltei, com 200 anos de diferen\u00e7a. Talvez eles n\u00e3o saibam que ningu\u00e9m ficou mais branco no Brasil por amor. Embranquecer ou desaparecer.<\/p>\n\n\n\n[&#8230;]\n\n\n\n<p>Eu espero um tipo de conex\u00e3o que n\u00e3o me afasta e sim me acolhe. Se eles realmente pudessem me ver, eles poderiam se ver?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Ant\u00f4nio Bispo dos Santos formula as concep\u00e7\u00f5es sobre a conflu\u00eancia e transflu\u00eancia que possibilitou a sobreviv\u00eancia, ou melhor, a vida do povos negros no Brasil, ele tamb\u00e9m fala das \u00e1guas como&nbsp; elos (rios que se encontram com os oceanos seja trilhando sobre a terra ou evaporando para chegar \u00e0s nuvens: o conhecimento \u00e9 como as \u00e1guas). Estando as \u00e1guas em conflu\u00eancia, em liga\u00e7\u00e3o, em uma conversa que n\u00e3o podemos escutar, a opera\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o pelo corte da montagem seria uma sobreposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra fundamento. O sentido, do verbo sentir, atribu\u00eddo a ela diz de um territ\u00f3rio, um modo de conhecer um mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Na capoeira dizemos fundamento. Aprendemos com nosso mestre, que aprendeu com o dele e assim segue. Fundamento, segredo, mandinga, respeito. Mestre Pastinha disse: \u201cA capoeira exige um certo misticismo, lealdade com os companheiros de \u2018jogo\u2019 e absoluta obedi\u00eancia \u00e0s regras que o presidem. Acreditamos que estas recomenda\u00e7\u00f5es s\u00e3o os fundamentos da capoeira.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>(Outros) Fundamentos<\/em>, empreender a busca, desejar algo que remeta a um retorno mobiliza desejos e riscos. Em meio aos reflexos, h\u00e1 um lampejo de abertura para deixar os ru\u00eddos de uma expectativa n\u00e3o cumprida permear a narrativa, essa exposi\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es d\u00e1 for\u00e7a ao filme. Mas como no mito de Narciso o espelho seduz, e como cantou Caetano a rela\u00e7\u00e3o com o que n\u00e3o \u00e9 espelho n\u00e3o \u00e9 harmoniosa e nos aproxima do risco de atualiza\u00e7\u00f5es da dimens\u00e3o d&#8217;Outros que o projeto colonial t\u00e3o fortemente empreendeu e empreende.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>sensa\u00e7\u00f5es a respeito de <\/strong><strong><em>Irun Or\u00ed<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>um dia antigo dentro do hoje&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/GeJ7tOu-R6NcYJnhDTLXhZNij1sGHV8gH6G0-5tp5yK21xjNX2zazkgl7sifcPbbABACBW5EnlQ-sMvrytf94bNQbMOTEO7Si-ZLQagybpIRTlSn8-tuwECbjowkva14_6xhIayZ\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Cabelo sendo tran\u00e7ado, o tempo de espera, o sono que vem chegando, chegando. O pesco\u00e7o querendo encostar. E a m\u00e3e que diz: firma a cabe\u00e7a a\u00ed, est\u00e1 quase terminando. Depois da espera o&nbsp; cabelo sempre preso &#8211; num coque, num rabo de cavalo ou em penteados nos quais cada fio ficava no seu devido lugar, bem juntinho sem um <em>arrupeio<\/em> &#8211; se solta. E a gente balan\u00e7a as tran\u00e7as, e sente a sensa\u00e7\u00e3o da brisa que criamos em torno de nossa cabe\u00e7a. Aquela pequena ventaniazinha. No frame, eu vejo, ou\u00e7o e sinto esse vento, ou\u00e7o. O filme <em>Irun Or\u00ed<\/em> (2020) \u00e9 um cafun\u00e9 no cabelo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>um dia que \u00e9 sempre<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ideia de modernidade \u00e9 uma ideia de morte, mas a morte branca \u00e9 ruim, porque a morte preta \u00e9 diferente. Na morte preta a gente consegue entender essas outras rela\u00e7\u00f5es, consegue entender o contato com outros mundos, mas a morte branca \u00e9 s\u00f3 morte.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Zica Pires<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Mundo Preto Tem mais Vida<\/em> (2018) se abre para uma profus\u00e3o de arquivos, imagens institucionais que reclamam uma ideia de moderniza\u00e7\u00e3o\/morte; as pinturas de Debret que ilustram narrativas sobre escraviza\u00e7\u00e3o; manchetes de jornal que ocupam a tela expondo a ideia de lucro que se constr\u00f3i face a destrui\u00e7\u00e3o de vidas. E as imagens do quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecurum Mirim no Maranh\u00e3o: o terreiro, a f\u00e9, um menino que corre pelo campo, a pipa no c\u00e9u, crian\u00e7as brincando e os testemunhos de uma hist\u00f3ria em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso empreender uma rememora\u00e7\u00e3o, calcada em todas as temporalidades, para mencionar as atualiza\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia escravagista empreendida pelo Estado Brasileiro. A mem\u00f3ria que se coloca em enfrentamento, diante de uma luta ainda em curso, em defesa do territ\u00f3rio e de um modo de vida &#8211; que tem mais vida. Testemunho, pois aqui \u00e9 preciso narrar, \u00e9 preciso a palavra dita, aquecida pelo h\u00e1lito, como nos ensina Leda Maria Martins.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cQuem tem que dizer quem n\u00f3s somos, somos n\u00f3s\u201d Anacleta Pires da Silva<\/p>\n\n\n\n<p><em>Notas de uma cena que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel esquecer:&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Maria Dalva Pires Belfort usando um vestido roxo com detalhes em branco, um turbante branco na cabe\u00e7a sentada observa o trem que passa na estrada, sob uma ponte feita em cima de um igarap\u00e9. Depois observa de p\u00e9 a \u00e1gua ali, aprisionada pela estrutura de concreto. Em seguida, ela canta para igarap\u00e9, o filho perdido da M\u00e3e d&#8217;\u00c1gua.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>um dia antes do hoje<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tem uma cena que eu nunca vi, mas eu imaginei muitas vezes. Talvez ela seja umas das minhas primeiras sensa\u00e7\u00f5es-cinema, uma imagem que a gente quase pode tocar de t\u00e3o de perto que acontece. Feito falar: parece filme! Para algo que voc\u00ea v\u00ea ali do outro lado da rua em que morou a vida inteira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na cena um homem,&nbsp; trabalhador rural, trajando uma cal\u00e7a jeans com uns remendos nas pernas, um chap\u00e9u, uma camisa do S\u00e3o Paulo branca, desce do trator amarelo, pega um embrulho cuidadosamente guardado e vai at\u00e9 a sombra de um \u00e1rvore do cerrado. \u00c9 hora do almo\u00e7o, a marmita feita antes do sol nascer \u00e9 degustada, depois um peda\u00e7o de rapadura e \u00e1gua, talvez um cochilo com chap\u00e9u cobrindo os olhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cena tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 no filme <em>Sob a sombra da palmeira<\/em> (2020), mas Chheangly Yeng ao descrever a vida do seu pai Chea Yeng, um trabalhador rural de Phnom Penh, capital do Camboja, nos conta de um almo\u00e7o assim, no intervalo da lida com a planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, com um plano que nos deixa embaixo da palmeira, miramos a paisagem que ele observou junto do pai num dia antigo em que ele acompanhou seu almo\u00e7o. Podemos tamb\u00e9m observar as mudan\u00e7as no lugar que ele se p\u00f5e a descrever: a terra est\u00e1 abandonada e n\u00e3o h\u00e1 mais a planta\u00e7\u00e3o de arroz. Das imagens e relatos emergem a dureza da lida no campo, o esfor\u00e7o para que o filho pudesse estudar, e a insist\u00eancia da palmeira que segue crescendo mesmo agora que o pai j\u00e1 n\u00e3o se senta \u00e0 sua sombra. E a gente fica ali, embaixo da \u00e1rvore, ouvindo a paisagem, vendo o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa perspectiva sens\u00edvel, o filme tamb\u00e9m se al\u00e7a para uma discuss\u00e3o muito cuidadosa em torno do trabalho. A obra se aproxima dessa tem\u00e1tica se valendo da imagem que n\u00e3o est\u00e1 no campo &#8211; n\u00e3o vemos Chea Yeng na lida com a terra e com o plantio, n\u00e3o vemos suas m\u00e3os calejadas, sua face cansada ou sua hora de almo\u00e7o sob \u00e0 sombra da palmeira, mas ali na materialidade da imagem sabemos a continuidade da aus\u00eancia de um pai com uma vida consumida em muito trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>o dia do levante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo em <em>Acervo ZUMVI \u2013 O Levante da Mem\u00f3ria<\/em> (2020) se espraia na minha travessia pelo Cachoeira. \u00c9 primoroso o modo como o filme de Iris de Oliveira se assenta. Come\u00e7a pelo quilombo. O fotogr\u00e1fo L\u00e1zaro Roberto, o \u201cLente Negra\u201d, revisita Ilha de Mar\u00e9, Comunidade Quilombola de Praia Grande, em Salvador, para conversar com Cl\u00e1udionor Souza, mestre balaiero. Falam de balaios, do tempo e de lembran\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A montagem&nbsp; une duas lentes negras, de L\u00e1zaro, com suas fotos alinhavando a narrativa, e as lentes de Jo\u00e3o Tatu, diretor de fotografia do filme. Fotografias de trabalhadores e trabalhadoras negras na Feira de S\u00e3o Joaquim dispostas na parede a vista das pessoas fotografadas. O registro e a milit\u00e2ncia junto ao Movimento Negro Unificado na Bahia. Cart\u00f5es do dia dos namorados com fotografias de pessoas negras. Por 35 minutos nos vemos diante da pol\u00edtica e da po\u00e9tica das imagens de L\u00e1zaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Abdias do Nascimento j\u00e1 dizia do atentado contra a vida do povo negro no Brasil destacando que essa morte est\u00e1 para al\u00e9m da extin\u00e7\u00e3o do corpo f\u00edsico, atravessando tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o do esquecimento sobre sua hist\u00f3ria. Assim, se esquecer \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de morte, lembrar \u00e9 modo de enfrentar, de tecer levantes e fazer prevalecer a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na mem\u00f3ria que se gesta o tempo, e no tempo que se gesta a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>um dia passado-presente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma carta para Michele<\/p>\n\n\n\n<p>Oi, Michele (de Michele Mesma), at\u00e9 pensei em fazer dessa carta um \u00e1udio, de modo que eu pudesse te entregar palavras ditas, como as que voc\u00ea nos entrega em seu filme, mas por ora essas palavras seguir\u00e3o por escrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, quero dizer que fiquei muito tocada pelo seu filme, pensando nesse processo de sair da terra em que se nasce. Eu me vejo muito em sua narrativa. Tamb\u00e9m me mudei, por motivos semelhantes, relacionados ao acesso ao ensino. Acho que tamb\u00e9m estou mais distante da Alessandra, filha ca\u00e7ula do Seu Goi\u00e1s e Dona Jaina, l\u00e1 do setor Bem Bom, neta da dona Macila e da Dona Martinha, costureira.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo muita coragem no seu filme. Desde as imagens, at\u00e9 a narra\u00e7\u00e3o que voc\u00ea assume de modo t\u00e3o determinado e se entregando ao risco de talvez amarrar demais uma hist\u00f3ria que envolve muitas pessoas e perspectivas, como a de nossas fam\u00edlias e amigos pr\u00f3ximos. Mas voc\u00ea diz de um modo genu\u00edno, vai contando poeticamente e com uma firmeza bonita em cada palavra. E nos entregando junto cada paisagem, textura e cheiro emaranhado em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Relacionando sua hist\u00f3ria a um tempo de tantos ataques \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as que rondam a ideia de uma forma\u00e7\u00e3o p\u00fablica, gratuita e diversa. Seu relato se torna ainda mais latente, diz da pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00f5es que o acesso ao ensino pode significar. Como voc\u00ea mesmo disse, seu percurso e encontro consigo mesma se d\u00e1 em entrela\u00e7amento com a possibilidade de acesso a forma\u00e7\u00e3o. Eu penso ainda na for\u00e7a e emerg\u00eancia dessas hist\u00f3rias no tempo de agora, e em como foi importante para mim te ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem algo que surpreende tamb\u00e9m nesse processo, talvez eu n\u00e3o tenha chegado nessa inteireza que voc\u00ea carrega sobre ser de si mesma. Sobre fazer de si mesma territ\u00f3rio. Em algum momento, me sinto num entre, sempre um pouco estrangeira em cada lugar que estou. E isso assusta. J\u00e1 estou na segunda cidade, tamb\u00e9m por motivos semelhantes aos da primeira partida. O que me lembra aquela m\u00fasica &#8220;Quem sai da terra natal, em outro canto n\u00e3o para; s\u00f3 deixo meu Cariri, no \u00faltimo pau de arara&#8221;. Ainda n\u00e3o sei precisar direito as sensa\u00e7\u00f5es sobre isso, mas gosto de como voc\u00ea v\u00ea esse estar no mundo ter borrado a fronteira do que seria seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s emo\u00e7\u00f5es que sua hist\u00f3ria me provocou, lembrei do filme <em>A vida sobre a terra<\/em> do Abderrahmane Sissako (1997). Bem no come\u00e7o da obra h\u00e1 a leitura de uma carta que o personagem Dramane, que \u00e9 da Maurit\u00e2nia, mas vive em di\u00e1spora na Fran\u00e7a, escreve para o pai. O texto traz trechos de Di\u00e1rio de um retorno ao pa\u00eds natal de Aim\u00e9 C\u00e9saire, me recordei especialmente do trecho que o Dramane, interpretado pelo diretor, questiona o pai \u201co que aprendi longe de voc\u00ea, vale mais a pena do que o que esqueci de n\u00f3s? \u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho resposta para essa quest\u00e3o, e gosto que a pergunta me ronde, deixo ela ficar perto sem buscar muitas certezas. E tamb\u00e9m tenho pensado sobre sua afirmativa de que carrega contigo todo o seu mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca sei ao certo como terminar cartas, mas por hora, quero mesmo \u00e9 agradecer a partilha e a coragem, fazendo votos para que essa carta lhe encontre bem e com sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Alessandra Brito \u2013 A Cristina Amaral falou em uma das muitas conversas que tive a alegria de ouvi-la que sonhar \u00e9 um direito&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7601,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[184,194,187,177,154,193,199,201,197,200,195],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7600"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7600"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7600\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7604,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7600\/revisions\/7604"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}