{"id":7598,"date":"2020-12-20T23:04:28","date_gmt":"2020-12-21T02:04:28","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7598"},"modified":"2020-12-20T23:06:36","modified_gmt":"2020-12-21T02:06:36","slug":"verdade-que-faz-jangada-maes-do-derick","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/20\/verdade-que-faz-jangada-maes-do-derick\/","title":{"rendered":"Verdade que faz jangada? (M\u00e3es do Derick)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Maria Bogado \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3es do Derick (2020), de D\u00ea Kelm, apresenta o cotidiano de Thammy, Bruna, Chiva e Ana, m\u00e3es de uma crian\u00e7a de nove anos. O filme se constitui a partir de uma imbrica\u00e7\u00e3o incomum entre diferentes registros. Sob um solo de document\u00e1rio observacional, misturam-se imagens amadoras realizadas pelas crian\u00e7as e clipes nos quais as personagens principais apresentam suas can\u00e7\u00f5es e protagonizam gestos coreografados. Em todos esses modos de composi\u00e7\u00e3o, a cumplicidade entre quem filma e quem \u00e9 filmada \u00e9 patente, x diretorx D\u00ea se aproxima do universo registrado ap\u00f3s anos de amizade com as envolvidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouqu\u00edssimo se sabe acerca da comunidade que circunda a moradia em que vivem ou das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e vizinhan\u00e7a que extrapolam a fam\u00edlia. A constru\u00e7\u00e3o de uma casa em um terreno ocupado \u00e9 o fio condutor da narrativa, permeada por situa\u00e7\u00f5es cotidianas e, em especial, pelo compartilhamento de afetos entre as m\u00e3es e o filho. Muito da biografia dessas m\u00e3es conhecemos pelas letras de suas m\u00fasicas. Raramente aparece qualquer tens\u00e3o que desestabilize o grupo. Essa placidez diferencia radicalmente<em> Maes de Derick<\/em> de um outro filme que se debru\u00e7a sobre um grupo de mulheres tamb\u00e9m apresentado neste festival, o <em>\u00c9 sim de verdade<\/em>, que tem no conflito o principal motor de sua dramaturgia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/TfesaIpMB28Kzcwr1rM1Na74qBykMlw-GgJ2Hu6NL8IRWHjLbPWPb1H6WZfAupMwuvc0jHM9oTGCin_2vuNL9MD1J7y4jMtE2OHxWa3fIsr3QJPVCaUFgpFnOX5snX2vqVq9CXrP\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/kG5_t-0i2BlxgVn0bhq9ddwuvmwsNlu9RC4seX_OvJ1tWGrwdx_Ra4aX-pbZD0rmBU5dPB3lA_bb5vfGB8X9ZdTxMg493HW4k5GmseXz-x50b9cuMMelG1ScxGvbVY6shPJd1Yeg\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Signos tradicionalmente atrelados ao feminino ou \u00e0s milit\u00e2ncias feministas permeiam os espa\u00e7os e s\u00e3o refor\u00e7ados nos clipes, quando se pretende, segundo uma das letras, \u201cdan\u00e7ar na cara do patriarcado\u201d. Os \u00edcones, como imagens de flores repetidas com insist\u00eancia, ou representa\u00e7\u00f5es de bruxas, refor\u00e7am o car\u00e1ter coeso e identific\u00e1vel do grupo. Sabemos que o capitalismo tem nas tecnologias de produ\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o das identidades de g\u00eanero, sexualidade, ra\u00e7a e nacionalidade um mecanismo fundamental para sustentar a divis\u00e3o colonial do trabalho. Produz-se o Outro racial, para permitir a escraviza\u00e7\u00e3o, produz-se o Outro de g\u00eanero para permitir a subordina\u00e7\u00e3o, produz-se o Outro estrangeiro para permitir a precariza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra e assim por diante\u2026 Essas marcas identit\u00e1rias impostas pelas elites perpetuam a subalterniza\u00e7\u00e3o ou exterm\u00ednio dos corpos considerados minorit\u00e1rios, estabelecendo quem pode explorar e quem pode ser explorado.* Portanto, tomar para si a capacidade de construir sua pr\u00f3pria identidade e torn\u00e1-la vis\u00edvel \u00e9, sem d\u00favidas, uma pot\u00eancia pol\u00edtica incontorn\u00e1vel. Contudo, como desfazer as identidades hegem\u00f4nicas sem reproduzir a mesma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o que moldou as opress\u00f5es? \u00c9 importante, aqui, atentar ao sempre atual pensamento de Audre Lorde:<\/p>\n\n\n\n<p>Aquelas de n\u00f3s que est\u00e3o fora do c\u00edrculo do que essa sociedade define como mulheres aceit\u00e1veis, aquelas de n\u00f3s que foram forjadas nos caldeir\u00f5es da diferen\u00e7a \u2013 aquelas de n\u00f3s que somos pobres, que somos l\u00e9sbicas, que somos Negras, que somos velhas \u2013 sabemos que sobreviv\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma habilidade acad\u00eamica. \u00c9 aprender a estar sozinha, impopular e \u00e0s vezes insultada, e a fazer causa comum com aquelas outras identificadas como externas \u00e0s estruturas, para definir e buscar um mundo no qual todas n\u00f3s possamos florescer. \u00c9 aprender a tomar nossas diferen\u00e7as e torn\u00e1-las for\u00e7as. Pois as ferramentas do senhor nunca v\u00e3o desmantelar a casa-grande. Elas podem nos permitir a temporariamente venc\u00ea-lo no seu pr\u00f3prio jogo, mas elas nunca nos permitir\u00e3o trazer \u00e0 tona mudan\u00e7a genu\u00edna. **&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas sequ\u00eancias dos clipes, o filme se situa na luz clariverende da representa\u00e7\u00e3o com uma objetividade inequ\u00edvoca. Para parir outros mundos talvez seja necess\u00e1rio se desviar dos modos de organiza\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel e de ordena\u00e7\u00e3o do discurso pr\u00f3prios da l\u00f3gica publicit\u00e1ria dos \u00edcones e palavras de ordem. Mudar as estrat\u00e9gias de atua\u00e7\u00e3o, jogar com outras \u201cferramentas\u201d. Talvez seja mais f\u00e9rtil virar a cara diante dos olhos e ouvidos do patriarcado, viciados no horizonte restrito e imediato do cognosc\u00edvel. Em \u201cA planta\u00e7\u00e3o cognitiva\u201d, a artista e pensadora Jota Momba\u00e7a lembra da import\u00e2ncia da opacidade como chave primordial para a constru\u00e7\u00e3o de um terreno \u00e9tico \u201c\u00e0 sombra dos regimes de representa\u00e7\u00e3o e registros de representatividade\u201d***.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o longa tamb\u00e9m revela outras possibilidades de rela\u00e7\u00e3o. Nas imagens produzidas por Derick e por uma amigo da mesma idade, apresenta-se uma c\u00e2mera errante totalmente implicada em sua presen\u00e7a no espa\u00e7o e em rela\u00e7\u00e3o com os corpos que a circunda. \u00c9 uma c\u00e2mera que n\u00e3o filma para mostrar algo que j\u00e1 saberia de antem\u00e3o, mas que usa a c\u00e2mera em sua fun\u00e7\u00e3o mais prim\u00e1ria: a de dar a ver. \u00c9 no ato de filmar que as crian\u00e7as descobrem o que e como enquadrar. Nos seus movimentos imprecisos, acompanhamos tamb\u00e9m as falhas, borr\u00f5es e composi\u00e7\u00f5es estranhas que dificultam a possibilidade de identificar os rostos e espa\u00e7os. O que fica de mais forte \u00e9 a forma como se aproximam ou se distanciam, em suma, a \u00e9tica propriamente relacional da filmagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto as m\u00e3es constroem a casa, por alguns instantes, Derick se equilibra em t\u00e1buas de madeira e canta a ciranda: \u201cminha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar\u201d. A imagem da jangada, embarca\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e sempre um tanto aberta \u00e0 deriva, \u00e9 de uma fecundidade \u00edmpar para entender uma \u00e9tica da experi\u00eancia que se molda nas m\u00e3os das crian\u00e7as. As jangadas tem estruturas deliberadamente mal amarradas. O car\u00e1ter frouxo, ao permitir que um pouco de \u00e1gua passe entre as t\u00e1buas, faz com que a embarca\u00e7\u00e3o se flexibilize sem quebrar no atravessamento de grandes ondas.**** Parece que os planos feitos pelas crian\u00e7as, com as fendas de opacidade que nos deixam, reservam um espa\u00e7o para o espectador perme\u00e1-los. Se nos clipes, os \u00edcones apresentam signos j\u00e1 pr\u00e9-formados, aos quais se adere ou n\u00e3o, essas imagens apresentam-se por outra l\u00f3gica. Como a jangada que tem sua forma modificada na passagem das \u00e1guas, as imagens das crian\u00e7as parecem \u00e0 espera da espectadora, nos convidando a uma experi\u00eancia que s\u00f3 se efetua com a passagem de nosso olhar. O cinema n\u00e3o como ferramenta de representa\u00e7\u00e3o de um grupo, mas como ferramenta de media\u00e7\u00e3o entre a comunidade que se funda no ato de filmar e as espectadoras por vir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/uF04BMZc4DSg0D9w1WeP-tqSQnillhpAHA2eu16OgucNnOubU45kzFeWOh_oj84GDQJF5vf23EzQdpB6Lv9h5l8JBNIW4Np22GooqmreXUb4P5gxzJvvrJ3OkCpvs-Dd2RBqlBvH\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Notas:<\/p>\n\n\n\n<p>* FEDERICI, Silvia. Calib\u00e3 e a bruxa: mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>** LORDE, Audre. <em>As ferramentas do mestre nunca v\u00e3o desmantelar a casa-grande.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Tatiana Nascimento, do artigo <em>The Master\u2019s Tools Will Never Dismantle the Master\u2019s House<\/em>, in: Lorde, Audre. <em>Sister outsider<\/em>: essays and speeches. New York: The Crossing Press Feminist Series, 1984. p. 110\u2013113. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/medium.com\/@paulllynda\/as-ferramentas-do-mestre-nunca-v%C3%A3o-desmantelar-a-casa-grande-audre-lorde-2da432d4b93a\">https:\/\/medium.com\/@paulllynda\/as-ferramentas-do-mestre-nunca-v%C3%A3o-desmantelar-a-casa-grande-audre-lorde-2da432d4b93a<\/a> Acesso em 20 dez 2020.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>*** MOMBA\u00c7A, Jota. <em>A planta\u00e7\u00e3o cognitiva. <\/em>S\u00e3o Paulo: Publica\u00e7\u00f5es MASP\/Afterall, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>**** Essa reflex\u00e3o em torno da jangada \u00e9 inspirada em elabora\u00e7\u00f5es do poeta, cineasta e pensador franc\u00eas Fernand Deligny.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Maria Bogado \u2013 M\u00e3es do Derick (2020), de D\u00ea Kelm, apresenta o cotidiano de Thammy, Bruna, Chiva e Ana, m\u00e3es de uma crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7599,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[163,202,161],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7598"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7598"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7605,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7598\/revisions\/7605"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}