{"id":7584,"date":"2020-12-20T19:35:06","date_gmt":"2020-12-20T22:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7584"},"modified":"2020-12-20T22:07:03","modified_gmt":"2020-12-21T01:07:03","slug":"em-defesa-dos-filmes-em-primeira-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/20\/em-defesa-dos-filmes-em-primeira-pessoa\/","title":{"rendered":"Em defesa dos filmes em primeira pessoa (Cinema Contempor\u00e2neo)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Lucas Menezes \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O meu primeiro encontro com o filme, deve ter sido em setembro ou outubro, quando ele estava dispon\u00edvel no youtube e um amigo me indicou a ver, ao saber do meu gosto por filmes-ensaio e cinema de autorrepresenta\u00e7\u00e3o. Assumo que foi uma das experi\u00eancias mais desconcertantes que j\u00e1 tive ao ver um filme, e naquele momento, por mais que quisesse escrever algo, n\u00e3o consegui. Precisava de tempo e um segundo encontro com a obra para ao menos tentar dar conta de elaborar a minha experi\u00eancia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O filme ter como nome \u201cCinema Contempor\u00e2neo\u201d, me provoca nesse processo de escrita a posi\u00e7\u00e3o de utilizar esse nome em dois sentidos: como substantivo, ao me referir ao filme em quest\u00e3o; e tamb\u00e9m como adjetivo, em que estarei me referindo a uma produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cinema Contempor\u00e2neo (adjetivo) pode ser muita coisa, e defini-lo \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, muito pela dificuldade de n\u00e3o conseguirmos fugir do contempor\u00e2neo como algo do nosso tempo. Nesse sentido, constru\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es da contemporaneidade podem possibilitar a exist\u00eancia de uma obra, e mesmo sem encontrar respostas muito concretas do como isso ocorre, posso observar algumas tend\u00eancias que ganham for\u00e7a na forma com que estamos fazendo e pensando o cinema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Dentro do circuito de festivais de curta-metragem, tenho percebido a const\u00e2ncia no aparecimento de algumas obras que buscam alternativas \u00e0 transpar\u00eancia (aquela que nega a opacidade) t\u00e3o comum ao cinema ficcional e a um olhar do cinema documental totalmente focado na representa\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d. Abrindo espa\u00e7o para um cinema do \u00edntimo, de uma voz que escolhe falar de si mesmo (ou explicitamente a partir de si).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Esse tipo de realiza\u00e7\u00e3o se fez bastante presente na programa\u00e7\u00e3o da atual edi\u00e7\u00e3o do Cachoeira Doc, a exemplo de Vander (2019) de B\u00e1rbara Carmo, Formatura (2020) de Caio Franco, Not\u00edcias de S\u00e3o Paulo (2019) de Priscila Nascimento, Michele de Michele Mesma: Narrativas de uma Mulher Sertaneja (2019) de Michele Menezes, entre outras obras que facilmente entram no grupo de filmes descrito Cinema Contempor\u00e2neo (substantivo).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Levando isso em considera\u00e7\u00e3o, me chama bastante aten\u00e7\u00e3o que o filme de Felipe Andr\u00e9 Silva comece falando desse grupo de filmes, como uma forma que possivelmente tenha alguns problemas, problemas estes que n\u00e3o foram citados, mas que podemos discuti-los aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Acredito que se expor e fazer um filme a partir de uma experi\u00eancia pode ser uma tarefa complicada, em uma contemporaneidade que o privado muitas vezes j\u00e1 se encontra t\u00e3o p\u00fablico e t\u00e3o manipul\u00e1vel \u00e0s constru\u00e7\u00f5es de identidades hegem\u00f4nicas. Me pergunto como um filme em primeira pessoa pode experimentar uma outra forma de projetar a experi\u00eancia privada, ou ser conivente com um discurso egoc\u00eantrico e de um eu espetacularizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses filmes, tamb\u00e9m podem esbarrar nos limites da experi\u00eancia de quem o faz. Essa que por um lado, vai se mostrar como um elemento singularizante, por outro corre o risco de entrar em um lugar de incontestabilidade a partir do argumento \u201cda <em>minha<\/em> experi\u00eancia\u201d, em que a natureza est\u00e9tica da obra se confunde com as vivencias e processos que conduziram a feitura do filme.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em contrapartida, mesmo que consciente da fragilidade dos lugares que percorre, parece que Cinema Contempor\u00e2neo (substantivo) se rende a sua forma, como algo poss\u00edvel e necess\u00e1rio, j\u00e1 que segundo o narrador, \u201cn\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m mais que possa contar a minha hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Mas isso tamb\u00e9m nos provoca a questionar \u201cquem nos conta essa hist\u00f3ria?\u201d; e &#8220;Quem \u00e9 essa primeira pessoa?\u201d (assim como o filme tamb\u00e9m se questiona), j\u00e1 que o curta-metragem parte da autoria de Felipe Andr\u00e9 Silva, sendo mediado pela narra\u00e7\u00e3o de Gustavo Patriota. Nesse caso, o quanto de Gustavo escapa ao discurso do filme, ao corporificar na sua voz a fala de Felipe Andr\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, talvez essa hist\u00f3ria seja mesmo contada pelo dispositivo, como o filme vai concluir, mas ao mesmo tempo, este nos desafia a pensar nos seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s discorrer sobre o fen\u00f4meno dos document\u00e1rios em primeira pessoa, o filme vai se debru\u00e7ar em uma fotografia que se apresenta no filme de forma fragmentada. Foto esta que mostra um grupo de homens com o rosto borrado, que abusaram de uma crian\u00e7a que tamb\u00e9m aparece na foto, sendo esse, o \u00fanico rosto que nos \u00e9 revelado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um primeiro momento, ao ver essa foto fragmentada, me lembrei de outras obras que tamb\u00e9m fizeram essa escolha est\u00e9tica, a exemplo de <em>Je vous salue, Sarajevo<\/em> (1993) de Jean-Luc Godard, ou at\u00e9 mais recentemente ao filme, Travessia (2017) de Safira Moreira. O meu espanto, foi ver que, diferentemente dessas outras obras, os fragmentos apresentados no filme de forma simult\u00e2nea ao relato de abusos de diversas ordens, n\u00e3o se juntam e n\u00e3o revelam a fotografia na sua totalidade, mas ao mesmo tempo, talvez porque nossos traumas tamb\u00e9m n\u00e3o possam ser sintetizados e a elabora\u00e7\u00e3o destes precise se dar de forma errante e fragmentada.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui fa\u00e7o a minha defesa dos filmes em primeira pessoa, j\u00e1 que acredito que pensar em Cinema Contempor\u00e2neo (substantivo) apenas do ponto de vista da narrativa, \u00e9 reduzir o filme ao lugar mais previs\u00edvel que tradicionalmente esteve colocado para a linguagem cinematogr\u00e1fica, e nesse sentido, quero acreditar no cinema como lugar para a elabora\u00e7\u00e3o de si. Elabora\u00e7\u00e3o que pode ter diversos gatilhos, mas fazer um filme n\u00e3o \u00e9 colocar pra fora conte\u00fados reprimidos que muitas vezes s\u00f3 poder\u00e3o ser externalizados a partir da rela\u00e7\u00e3o com o dispositivo f\u00edlmico?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u00c0s vezes fa\u00e7o algumas suposi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos cineastas que gosto. Olho por exemplo para Jonas Mekas e fico imaginando como filmar o cotidiano em um novo continente ap\u00f3s fugir de um campo de concentra\u00e7\u00e3o, pode ter sido um mecanismo de sobreviv\u00eancia. Tamb\u00e9m penso em filmes como<em> Em seus bra\u00e7os<\/em> (1989) e <em>C\u00e9u, Vento, Fogo, \u00c1gua, Terra<\/em> (2001), e tento imaginar a import\u00e2ncia que esses filmes tiveram na forma\u00e7\u00e3o de identidade da realizadora Naomi Kawase, como \u00f3rf\u00e3, que estava em busca de seu pai nessas obras.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje penso em Cinema Contempor\u00e2neo (substantivo) e n\u00e3o deixo de pensar nas poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es que esse filme pode ter com o cinema contempor\u00e2neo (adjetivo), dentro de muitas ressignifica\u00e7\u00f5es e atribui\u00e7\u00f5es dadas ao que pode ser fazer cinema nessa contemporaneidade. Nesse contexto, vejo o filme de Felipe Andr\u00e9 Silva como um lugar de eco para uma voz que precisava ser ouvida, reivindicando o territ\u00f3rio do fazer f\u00edlmico, como um ato de coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Lucas Menezes \u2013 O meu primeiro encontro com o filme, deve ter sido em setembro ou outubro, quando ele estava dispon\u00edvel no youtube&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7585,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[176,183,181,182,170],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7584"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7584"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7593,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7584\/revisions\/7593"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}