{"id":7581,"date":"2020-12-20T19:31:09","date_gmt":"2020-12-20T22:31:09","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7581"},"modified":"2020-12-20T22:07:29","modified_gmt":"2020-12-21T01:07:29","slug":"um-vicio-no-horizonte-outros-fundamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/20\/um-vicio-no-horizonte-outros-fundamentos\/","title":{"rendered":"Um v\u00edcio no horizonte ((Outros) Fundamentos)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Gl\u00eanis Cardoso \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOyinbo&#8221; \u00e9 como ouvimos a diretora ser chamada por crian\u00e7as nigerianas. Ela continua: \u201cOyinbo. Branca. Branca na Nig\u00e9ria, negra no Brasil. Eu os reconhe\u00e7o, eles n\u00e3o me reconhecem.\u201d Adentramos, assim, as \u00e1guas em Lagos num barco em que uma mulher nigeriana negra rema, se afastando do cais. Estamos adentrando Aline tamb\u00e9m, sua viv\u00eancia diasp\u00f3rica, sua busca por ra\u00edzes, a opacidade dessa experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1gua \u00e9 vida. Lagos, Rio de Janeiro, Cachoeira. Os espelhos refletem o c\u00e9u, refletem a \u00e1gua, a \u00e1gua que reflete o c\u00e9u, a \u00e1gua que une e separa Nig\u00e9ria e Brasil, a diretora de seus ancestrais. A repeti\u00e7\u00e3o e o eco dos nomes das cidades se confundem at\u00e9 que n\u00e3o saibamos mais o que \u00e9 Lagos, o que \u00e9 Cachoeira, o que \u00e9 Rio. Aline Motta faz um movimento delicado e po\u00e9tico de busca por origens, conex\u00f5es e misturas atrav\u00e9s das imagens de barcos, pontes e espelhos nas tr\u00eas cidades que t\u00eam \u00e1gua no pr\u00f3prio nome. \u00c1gua \u00e9 vida, mas \u00e9 turva, \u00e0s vezes indecifr\u00e1vel. A imagem de um barco que carrega um corpo negro tem uma carga de significados imensa, s\u00e3o elementos que se relacionam com um trauma profundo e coletivo e que, entretanto, n\u00e3o se resume apenas \u00e0 viol\u00eancia. \u00c1gua \u00e9 vida. Ela separa o caminho, ela \u00e9 o caminho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assistindo ao filme, lembrei de Anne Carson em seu livro <em>Plainwater<\/em>. Ela escreve: \u201c\u00c9 um segredo aberto entre peregrinos e outros te\u00f3ricos dessa vida viajante que voc\u00ea se vicia no horizonte. Existe um momentum no andar, na fome, nas estradas, na cumbuca vazia dos pensamentos, que \u00e9 mais luxuoso \u2014 mais civilizado \u2014 que qualquer cidade. At\u00e9 o mais antigo Guia do Peregrino, publicado em 1130 A.C., cont\u00e9m observa\u00e7\u00f5es que tocam no dilema do peregrino que chega no seu destino e n\u00e3o consegue parar\u201d (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar a um destino nunca \u00e9 t\u00e3o satisfat\u00f3rio quanto saber que voc\u00ea est\u00e1 indo ao seu encontro. Alcan\u00e7\u00e1-lo \u00e9 encarar que o lugar sonhado ainda \u00e9 um n\u00e3o-lugar, um n\u00e3o-pertencimento, um desconforto que nunca ser\u00e1 superado completamente. Em Lagos, Aline fala sobre ser observada o tempo todo, notada por sua diferen\u00e7a. Existe uma tristeza em ser vista que fala sobre a dist\u00e2ncia entre ela e as pessoas ali. E a invisibilidade n\u00e3o \u00e9 menos triste. \u00c9 poss\u00edvel ser vista num movimento de aproxima\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de distanciamento? Os espelhos no filme refletem peda\u00e7os da paisagem que n\u00e3o podemos ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontramos um terreno baldio onde se esperava encontrar uma casa. Estamos na Nig\u00e9ria e lembramos do Brasil. Estamos no Brasil e sonhamos com a Nig\u00e9ria. Apontamos um espelho para Lagos e vemos Cachoeira. Apontamos um espelho para o Rio e vemos Lagos. Ou uma ponte, que une e separa dois pontos que nunca podemos ver. Ou o c\u00e9u, que \u00e9 o mesmo l\u00e1 e c\u00e1. A ponte, o barco, a \u00e1gua, o espelho, o c\u00e9u. Imagens que comportam exist\u00eancias limiares, o estar aqui e estar l\u00e1, o pertencer e o n\u00e3o pertencer. Mas h\u00e1 uma fita azul que une tudo. Na familiaridade do estranho e no estranhamento do familiar \u00e9 poss\u00edvel encontrar ar suficiente para se respirar e existir. Indo atr\u00e1s da paisagem que altera sua paisagem interior, Aline tamb\u00e9m altera os lugares por onde passa. Ela carrega consigo ventos, fogo, ela \u00e9 marcada e marca de volta. A fita azul est\u00e1 na \u00e1gua, est\u00e1 no vento, est\u00e1 em volta de um pesco\u00e7o negro, h\u00e1 uma chama na \u00e1gua. Aline olha a paisagem, a paisagem olha de volta. H\u00e1, enfim, um reconhecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Gl\u00eanis Cardoso \u2013 \u201cOyinbo&#8221; \u00e9 como ouvimos a diretora ser chamada por crian\u00e7as nigerianas. Ela continua: \u201cOyinbo. Branca. 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