{"id":7549,"date":"2020-12-19T12:27:42","date_gmt":"2020-12-19T15:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7549"},"modified":"2020-12-20T22:08:23","modified_gmt":"2020-12-21T01:08:23","slug":"comprometer-o-cinema-com-a-vida-entre-nos-e-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/19\/comprometer-o-cinema-com-a-vida-entre-nos-e-o-mundo\/","title":{"rendered":"Comprometer o cinema com a vida (Entre n\u00f3s e o mundo)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Luan Santos \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Meninos rimam no ritmo de um funk sobre suas experi\u00eancias e pulsa\u00e7\u00f5es de futuro na calada da noite em meio aos becos do bairro. A c\u00e2mera vagueia por essas vozes que parecem ecoar sob as luzes das casas de uma periferia, que ilumina e ao mesmo tempo \u00e9 iluminada por esses meninos. Os planos que se seguem ap\u00f3s o descanso das vozes captam becos e vielas de uma periferia de S\u00e3o Paulo, os ru\u00eddos de sirene ao fundo impregnam as imagens com uma atmosfera densa, materialidade que se sente na pele ao irradiar uma tens\u00e3o de que \u201calgo de ruim pode acontecer\u201d. Na parede de uma escada a pixa\u00e7\u00e3o escrito \u201cNada Muda\u201d capta a tens\u00e3o dos planos e choca-se com as rimas embebidas de esperan\u00e7a de outrora. Essa \u00e9 a abertura da obra \u201cEntre N\u00f3s e o Mundo\u201d (2019) dirigido por Fabio Rodrigo (SP), uma narrativa que se articula na pot\u00eancia do choque entre sentimentos, de ir al\u00e9m da viol\u00eancia da dor para desaguar em ternura, um olhar carinhoso para Vila Ede &#8211; ressoando em v\u00e1rios outros bairros perif\u00e9ricos do Brasil &#8211; enxergando nas nossas crian\u00e7as o futuro que se desenvolve. A nostalgia como materialidade que aspira ao futuro re estruturando o passado. Sem esquecer as viol\u00eancias de outrora, mas numa busca de preencher as lacunas com momentos doces.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Se tratando de narrativas que se passam em periferias do Brasil, \u201cEntre N\u00f3s e o Mundo\u201d est\u00e1 bem distante de explorar esses bairros e as pessoas que vivem neles retratando a viol\u00eancia constante infligida contra seus corpos. Optando por direcionar seu olhar para captar as complexidades afetivas de fam\u00edlias, inserindo o pr\u00f3prio bairro como um componente familiar, \u201cEntre N\u00f3s e o Mundo\u201d matiza as dores e as del\u00edcias de viver na Vila Ede. \u00c9rika est\u00e1 gr\u00e1vida e acorda para mais um dia. Na cozinha, observa a rua ruidosa da janela com grades. M\u00e3e de Theylor e N\u00edcolas, \u00c9rika agora est\u00e1 gr\u00e1vida de uma menina chamada Al\u00edcia, que infelizmente n\u00e3o vai poder conhecer o irm\u00e3o mais velho, exceto por fotos, hist\u00f3rias da fam\u00edlia e pela pr\u00f3pria obra que se desenrola. O genoc\u00eddio da juventude preta no Brasil, atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es racistas como as Pol\u00edcias Militares, ocorre sob o aval do Estado Brasileiro, principalmente nas periferias das cidades. Theylor Alexandre de 16 anos foi assassinado por policiais militares na frente de sua escola. Essa informa\u00e7\u00e3o agonizante nos chega com um voice-over da tia de Theylor, enquanto as ruas da Vila Ede s\u00e3o captadas com singularidade \u00edntima. Abordando um tema complexo e sofrido, a narrativa da obra opera deslocamentos entre o que se \u00e9 dito e o que \u00e9 visto, possibilitando uma dualidade que preserva a dor das pessoas pr\u00f3ximas (e o espectador), enxugando as ang\u00fastias dos relatos sem diminuir a viol\u00eancia do ato. Logo ap\u00f3s o \u00e1udio que nos informa sobre o falecimento de Theylor, vemos \u00c9rika costurar um tecido rosa para sua filha que ainda ir\u00e1 nascer, em um gesto (do filme e da \u00c9rika), que me parece, costurar outras possibilidades que escapem da dor, inscrev\u00ea-las em cada linha\/plano, para captar as nuances de felicidade da vida que nos rodeia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/cxQ48fAmgDNGC0GXfSM1wwye5OAt1xhYSWAL_ZYemOpISO_7YyyDHKs4gPoWEmJpOwylr_XBFfiTc7gNMa0olHl2t2VHqaS3-jX2x_nRFEEWGUUKQUHq6ICROhrE0V68LdZseYE\" alt=\"\" width=\"693\" height=\"374\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em certo momento, F\u00e1bio Rodrigo, que \u00e9 primo da \u00c9rika, atrav\u00e9s de uma conversa por audios de Whatsapp, declara que \u201cdepois que embarquei nessa de dirigir filmes, fiquei mais nost\u00e1lgico\u201d. Essa frase ressoa pela pr\u00f3pria obra como um conceito que parece embeber cada plano em uma atmosfera de pura familiaridade, como se fosse a casa da nossa inf\u00e2ncia em que sabemos as marcas e manchas de todas as paredes. Dessa mensagem de Whatsapp tamb\u00e9m surgiu outra caracter\u00edstica que me parece saltar no filme, carinhosamente esculpida em sua estrutura. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, escritora e doutora de Letras, em um texto compartilha conosco as mem\u00f3rias enraizadas de sua m\u00e3e desenhando o sol com gravetos no ch\u00e3o-tela, buscando no gesto de desenhar invocar o sol para findar os nublados. A escrita, para Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, seria ent\u00e3o urgente, necess\u00e1ria e prospectiva, indagando-se que \u00e9 \u201cPreciso comprometer a escrita com a vida?&#8221; Dessa ideia que me parece se entrela\u00e7ar com o filme, afirmo que tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio comprometer o cinema com a vida*. Uma frui\u00e7\u00e3o que se abrace com nosso cotidiano. Um bairro onde futuros se tornam presentes. \u201cEntre N\u00f3s e o Mundo&#8221; comp\u00f5e um cinema de saudade, nostalgia como materialidade f\u00edlmica, que busca nas fotografias em fam\u00edlia e nas conversas partilhadas os bons momentos que desencadeiam sorrisos. Os di\u00e1logos por mensagens de Whatsapp cotidianas s\u00e3o intercaladas com fotografias de Theylor e sua fam\u00edlia h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s, incidindo passado, presente e futuro como temporalidades que se relacionam mutuamente, sem linearidade, em um constante devir que nos permite seguir al\u00e9m do trauma, ainda que este persista, para desaguar em afetividades compartilhadas. O ch\u00e1 de fraldas de Al\u00edcia e a conversa de F\u00e1bio com \u00c9rika sobre os filhos \u00e9 de uma intimidade que aconchega e aquece o interior da gente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma sequ\u00eancia final que se inicia observando com calma a beb\u00ea Al\u00edcia &#8211; que olha de volta para c\u00e2mera, a narrativa perambula pelas ruas da Vila Ede com uma m\u00fasica que conduz os olhares familiares enxergando nas crian\u00e7as uma pot\u00eancia infinita, futuros que correm e jogam bola na rua descal\u00e7os no asfalto quente. Nicolas (MC Rafinha ZN), seus amigos MC Biel SP e MC Kinho caminham para vida. Um menino negro com a camisa azul encara a c\u00e2mera por breves instantes enquanto pedala sua bicicleta levando sua irm\u00e3 mais nova consigo rumo ao que as c\u00e2meras n\u00e3o podem captar integralmente, na vida que escorre pelas frestas dos planos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntre N\u00f3s e o Mundo\u201d abriga tanta vida dentro de si que des\u00e1gua feito \u00e1guas do Rio Paragua\u00e7u nas ruas de Cachoeira. Deslocando a dor do trauma para captar as matizes do cotidiano sens\u00edvel que incide na Vila Ede, a obra observa com cuidado o germinar de renova\u00e7\u00e3o, pulsa\u00e7\u00f5es de esperan\u00e7as. Uma homenagem para o Theylor e para a felicidade que recusa ceder ao trauma da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/JbzNHylNxNRTCoeMcSK_IWRHVRazb0fFkb6LcoZyZM6seXqhf_-lu90TfNyYugxpCiGb2mf6RlCu1rIDKcgyNczqatm8zGzcNZtYbH_cAe7bRFRLPeXdiLIIYJ0C4ORBIXXWXV4\" alt=\"\" width=\"679\" height=\"367\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">*Agrade\u00e7o ao F\u00e1bio Rodrigues Filho por germinar, involuntariamente, nas minhas reflex\u00f5es essa ideia que \u00e9 t\u00e3o preciosa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Da Grafia-Desenho de Minha M\u00e3e Um Dos Lugares de Nascimento de Minha Escrita por Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/nossaescrevivencia.blogspot.com\/2012\/08\/da-grafia-desenho-de-minha-mae-um-dos.html\">http:\/\/nossaescrevivencia.blogspot.com\/2012\/08\/da-grafia-desenho-de-minha-mae-um-dos.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Luan Santos \u2013 Meninos rimam no ritmo de um funk sobre suas experi\u00eancias e pulsa\u00e7\u00f5es de futuro na calada da noite em meio&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7552,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[171,181,172,170,166],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7549"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7549"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7549\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7553,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7549\/revisions\/7553"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}