{"id":7503,"date":"2020-12-16T08:50:54","date_gmt":"2020-12-16T11:50:54","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7503"},"modified":"2020-12-20T22:09:02","modified_gmt":"2020-12-21T01:09:02","slug":"verdade-que-da-rasteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/16\/verdade-que-da-rasteira\/","title":{"rendered":"Verdade que d\u00e1 rasteira (\u00c9 Sim de Verdade)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Maria bogado \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 sim verdade <\/em>(2018)<em>, <\/em>dirigido por onze mulheres em situa\u00e7\u00e3o de encarceramento junto ao Complexo Prisional de Feira de Santana, apresenta o cinema como ferramenta de constru\u00e7\u00e3o de uma coletividade t\u00e3o afetuosa quanto tensa. Apesar do espa\u00e7o cinza e dos uniformes, sobressai o rosto, a voz e dic\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de cada uma das participantes da experi\u00eancia: Bianca Silva de Santana, Cosmira dos Santos de Almeida, Daiane de Oliveira Dias, Eriane Barbosa, J\u00e9ssica Silva dos Santos, Lucinete Gon\u00e7alves Rodrigues, Lucy Landgrat, Marlete Santos Peixoto, Nat\u00e1lia da Costa Brand\u00e3o Santos, Rozil\u00e9ia de M. Ara\u00fajo e Ta\u00eds Fortunato dos Santos. O filme \u00e9 fruto das oficinas de g\u00eanero, ra\u00e7a, sexualidade e audiovisual do projeto \u201cDireitos sexuais de mulheres negras l\u00e9sbicas em situa\u00e7\u00e3o de encarceramento\u201d, vinculado \u00e0 UFRB. Mais do que pela poss\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o entre mulheres submetidas a uma mesma condi\u00e7\u00e3o social, a dramaturgia se faz no embate permanente, ressaltando a for\u00e7a criadora do choque entre as diferen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/L4CoLYoaO9S9vOxU78BByI-16iJE0Ha0qIIZCO0CRDLOjnLfnTJjK2D3xdIbfx6Jx71228tUW5jqYmmNMvh90NPtPsZyO1i9EBXXuwA2O9AIA3cKAlrZdEN330FRNlmwqJNe-d8\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 sim de verdade <\/em>se inicia com as mulheres reunidas em torno de pap\u00e9is e canetas nos quais escrevem um roteiro. O dissenso n\u00e3o tarda a aparecer. Uma delas afirma que no filme \u201ctem que mostrar a vida real, a vida da cadeia como ela \u00e9\u201d. Logo em seguida, outra sugere uma cena em que a amiga seria hostil com Gugu, uma das figuras com a pele mais escura e de performatividade mais socialmente lida enquanto masculina. A amiga reage, dizendo que n\u00e3o agiria dessa forma com Gugu na \u201cvida real\u201d, por n\u00e3o ser preconceituosa. A propositora sustenta seu intento, afirma que \u201ca cena de preconceito\u201d n\u00e3o pode ficar de fora do roteiro. Seria por fidelidade \u00e0 vida real ou por fidelidade aos clich\u00eas que buscam representar as minorias sempre pela chave do estigma e do sofrimento? Como veremos, a riqueza do filme se situa justo na capacidade de se sustentar na linha t\u00eanue entre esses dois p\u00f3los.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da feitura do roteiro, vemos a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e as negocia\u00e7\u00f5es dos modos de encenar. Um len\u00e7ol pode tapar uma parede, servir de divis\u00f3ria do espa\u00e7o, cobrir corpos que fazem amor. Uma fala deve ser dada diante ou atr\u00e1s das grades. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma escolha ing\u00eanua, tampouco pac\u00edfica. Mesmo as supostas falhas t\u00e9cnicas n\u00e3o s\u00e3o meros erros, mas incorporam a cumplicidade na aprendizagem compartilhada do manejo dos equipamentos de capta\u00e7\u00e3o de imagem e som. Uma cena \u00e9 interrompida para que uma amiga ajude a outra a manusear o gravador: a fic\u00e7\u00e3o se complementa com a exposi\u00e7\u00e3o da parceria intr\u00ednseca \u00e0 sua feitura. A op\u00e7\u00e3o por legendar o filme, para compensar a inaudibilidade de certas falas, sustenta a aposta na for\u00e7a do registro com toda a sua abertura ao erro. A todo o momento, o roteiro e a decupagem s\u00e3o dissolvidos pelos impulsos dos corpos que se exaltam, que se movem pelo calor dos choque e desfazem toda a organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do espa\u00e7o, do texto e dos gestos da atua\u00e7\u00e3o. Po\u00e9tica involunt\u00e1ria. Mais do que qualquer acordo pr\u00e9vio, s\u00e3o esses desenquadramentos, ru\u00eddos e esbarr\u00f5es que formam a marca do coletivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/DkoZsSn7d7IW6B3bgV1FTHqY-vdIHA3HLVm7XW_vdQPYT-YKEIr2Mz1MmrK6OzS63UEftIFSpLc2NuCexIKYIuDYDOC98JR8PzzVOB1K9ZPTfzC_1qvFrx1DioxxKqBJ2CujM1U\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em dado momento, uma delas afirma que \u201cn\u00e3o existe liberdade na cadeia\u201d. Se as pot\u00eancias da fic\u00e7\u00e3o as levam a imaginar uma liberta\u00e7\u00e3o, nada mais justo do que encenar, ent\u00e3o, uma sa\u00edda. No final da narrativa, todas celebram a despedida de Daiane, que voltar\u00e1 para a casa. No entanto, uma delas alerta: \u201cju\u00edzo para n\u00e3o passar no Fant\u00e1stico de novo\u201d. Elas conhecem bem a cena de espetaculariza\u00e7\u00e3o do sofrimento ligada ao sistema prisional. Uma delas acha que Daiane n\u00e3o est\u00e1 suficientemente adequada ao clich\u00ea e pergunta: \u201cCad\u00ea o choro, Daiane?\u201d. Daiane refaz a cena com um choro explicitamente for\u00e7ado, o que em vez de conferir o esperado tom dram\u00e1tico, cria um distanciamento que tende ao deboche. Mais do que inventarem formas distintas dos estere\u00f3tipos, elas conseguem os acionar de forma cr\u00edtica, subvert\u00ea-los.<sup>1<\/sup> O espectador que pretende ver o objeto pr\u00e9-concebido \u2014 como na cena do Fant\u00e1stico \u2014 \u00e9 pego de surpresa vendo um sujeito que joga ativamente com suas expectativas. O olhar \u00e9 devolvido. \u00c9 verdade, sim. Verdade f\u00edlmica. Mais do que isso, verdade do cinema enquanto pot\u00eancia pol\u00edtica de elabora\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do real. Quem espera uma simpl\u00f3ria \u201ccena do preconceito\u201d vai levar rasteira. Se na \u201cvida real\u201d elas n\u00e3o saem da cadeia, sem d\u00favidas alcan\u00e7am alguma liberdade ao driblar os enquadramentos pr\u00e9vios que definem o imagin\u00e1rio desse espa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><sup>1<\/sup>Esse argumento \u00e9 inspirado na comunica\u00e7\u00e3o \u201cRevendo a hist\u00f3ria da cultura de massa no Brasil: teoria e contesta\u00e7\u00e3o do estere\u00f3tipo do negro\u201d, na qual a pesquisadora Liv Sovik discute a constru\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos, de seus espectadores e as formas cr\u00edticas de contest\u00e1-los. Dispon\u00edvel no canal do youtube da TV UFRB: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=e5Yb3DU8Hag&amp;ab_channel=TVUFRB\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=e5Yb3DU8Hag&amp;ab_channel=TVUFRB<\/a> .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">**Na an\u00e1lise do longa-metragem <em>M\u00e3es de Dereck <\/em>desdobraremos o problema de como o cinema pode interferir na constru\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de um grupo, verificando formas muito distintas nos modos de fazer e organizar as imagens e sons. No texto &#8220;Verdade do \u00edcone ou da experi\u00eancia?&#8221; seguiremos essa conversa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Maria bogado \u2013 \u00c9 sim verdade (2018), dirigido por onze mulheres em situa\u00e7\u00e3o de encarceramento junto ao Complexo Prisional de Feira de Santana,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7509,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[163,160,162,161,180,166],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7503"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7503"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7591,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7503\/revisions\/7591"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}