{"id":7476,"date":"2020-12-15T12:48:35","date_gmt":"2020-12-15T15:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/?p=7476"},"modified":"2020-12-20T22:39:19","modified_gmt":"2020-12-21T01:39:19","slug":"ponto-de-ebulicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/2020\/12\/15\/ponto-de-ebulicao\/","title":{"rendered":"Ponto de ebuli\u00e7\u00e3o (Fala-performance de abertura)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013 por Lina Cirino \u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">Querido Di\u00e1rio,<br>Escrevo, pela primeira vez, j\u00e1 sabendo que um dia o perderei e algu\u00e9m ler\u00e1 o meu cotidiano. N\u00e3o posso contar os detalhes s\u00f3rdidos dos meus dias cativantes \u2212 poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">Sa\u00ed de casa, cabreira, para comprar chocolates e voltei com um di\u00e1rio que com certeza vou perder em alguma encruzilhada&#8230; Decidi comprar pra soltar a m\u00e3o, que anda muito acad\u00eamica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">Hoje vi-ouvi a fala-performance de Denise Ferreira da Silva, no IX Cachoeiradoc. Ela come\u00e7ou falando sobre a palavra. Esta mesma que uso agora para me livrar dessa p\u00e1gina em branco que tanto me atormenta. Catei um trecho, seu in\u00edcio, coisa dif\u00edcil \u00e9 come\u00e7ar, vou carimbar aqui \u2212 sem me curvar \u00e0s normas da ABNT. Ai que del\u00edcia o poder de um querido di\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">\u201cA fala, o discurso, n\u00e3o tem nenhuma outra vantagem sobre as outras maneiras de expressar, sobre as imagens, os sons, os odores, os sabores\u2026 Mesmo assim, ainda assim: a fala, a palavra, a senten\u00e7a, o par\u00e1grafo, o texto parecem tomar conta de tudo. Ocupar o sentido e o senso. N\u00e3o \u00e9 sensato, mas \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o perguntar: Por qu\u00ea? Por que a fala e a palavra t\u00eam essa capacidade de ocupar o sentido e o senso? Talvez a imensid\u00e3o da pergunta tenha a ver exatamente com isso: quero dizer, quais as impossibilidades de falar algo sem ou antes das palavras? N\u00e3o h\u00e1 como dizer al\u00e9m do que as palavras permitem. Isso por duas limita\u00e7\u00f5es, por assim dizer. Em termos dos limites e das limita\u00e7\u00f5es das palavras, ou seja, daquilo que essas n\u00e3o podem expressar, e em termos daquilo que estas podem<br>expressar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">Escrevo, querido di\u00e1rio, sabendo que ela \u2212 a palavra \u2212 sinuosa, escorregadia, engessada, paradoxal, insuficiente: cria materialidades por meio de suas edifica\u00e7\u00f5es engendradas: os discursos. Malditos-benditos! <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color\">Mas assim como as palavras t\u00eam o poder de construir<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">    <span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">elas tamb\u00e9m desconstroem.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Possibilidades\u2026<br><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Um filme \u00e9 como um texto? Para ser lido, conectado, catado, desvendado,<br>interpretado, colhido? Ou a imagem<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">                                                                                       <span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Quebra<br>                                                                                       Quem quiser revel\u00e1-la<br>                                                                                     <\/span>       <span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">?<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">\u00c9 no corpo que integralizamos signos e sensibilidades provocadas por uma imagem que seduz nossa aten\u00e7\u00e3o. Mas este mesmo corpo pode se deparar com imagens (aqui n\u00e3o restritas \u00e0 vis\u00e3o) que escapam seus mecanismos de compreens\u00e3o \u2212 o inenarr\u00e1vel, inomin\u00e1vel, incompreens\u00edvel.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Cachoeira t\u00e1 muito quente! O ventilador n\u00e3o t\u00e1 dando conta. Ferve em mim muitas perguntas com essa fala-performance<\/span>. <span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">E ela ainda inventou \u2212 olha que incr\u00edvel \u2212 tirar cartas de Tarot, no meio do rol\u00ea. Vou recortar e colar aqui:<\/span><br><img src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/TIw_vxfYlrYMkb-NatYEd-zNz7QzZROiFOJkiY7y0aCJec2lHcKRkRL8OqbTLnDJjxwOrfoWxkogVweIoAw47SGT_l5pYYb-mdp2XG82x_PYntX5x5NkAD5Tuplu3IlGgKX3ze8\" style=\"width: 2000px\"><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Me debru\u00e7o sobre ela, a imagem,<\/span> <span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">sentindo-sabendo que (me) quebrar\u00e1 em cacos. Mesmo se reun\u00ed-los [os cacos], a imagem n\u00e3o \u00e9 a mesma. Ficar\u00e1 evidente as fissuras, rachaduras, cicatrizes de sua leitura em palavras: Denise \u00e0 esquerda, trajando preto, sentada em um c\u00f4modo que lembra um escrit\u00f3rio, em casa. Ao fundo uma divis\u00f3ria sanfonada \u2212 talvez para separar o que \u00e9 casa e o que \u00e9 trabalho: o que pode ser visto e o que n\u00e3o pode. Imagem tem dessas: de operar o vis\u00edvel e o invis\u00edvel. Aquilo que sentimos e n\u00e3o sabemos dar nome t\u00e1 no \u00e2mbito do invis\u00edvel? No centro da imagem, pendendo \u00e0 direita, o jogo. Doze cartas sobre a mesa, n\u00e3o s\u00f3 a de Denise, mas sobre as nossas tamb\u00e9m. Ela avisou: as cartas seriam tiradas para quem estivesse presente, partilhando da energia de sua fala-performance. Elas posam sobre um manto azul: \u00e1s de pentagramas; roda da fortuna; tr\u00eas de pentagramas; rainha de paus; seis de copas; cavaleiro de espadas; oito de espadas; o enforcado; roda da fortuna; nove de pentagramas; o diabo.\u00a0 Ao fundo: \u00e1gua-espelho; linha-superf\u00edcie. Denise flutua na \u00e1gua, abrindo caminhos de leituras. J, com sua percep\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada, planta rastros indisciplinados. Sugere &#8220;Descansar as espadas&#8221;. Precisamos encontrar outras armas para al\u00e9m das espadas para enfrentar <em>o embate<\/em>, complementou Denise. Quais imagens lutam como espadas? Me pergunto. Quais imagens precisam descansar, como as espadas?<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Quais imagens s\u00e3o alternativas \u00e0s espadas para enfrentar o embate?<\/span><\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">O vento que entra pela janela ainda \u00e9 quente. Calma Cachoeira!<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Vou tomar um banho gelado.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 por Lina Cirino \u2013 Querido Di\u00e1rio,Escrevo, pela primeira vez, j\u00e1 sabendo que um dia o perderei e algu\u00e9m ler\u00e1 o meu cotidiano. N\u00e3o posso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7480,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[144],"tags":[155,179,152,150,154,149,151,153],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7476"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7476"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7476\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7484,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7476\/revisions\/7484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/festival\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}