{"id":1656,"date":"2017-08-19T20:27:48","date_gmt":"2017-08-19T23:27:48","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/?page_id=1656"},"modified":"2017-08-19T20:27:48","modified_gmt":"2017-08-19T23:27:48","slug":"homenagem-a-luiz-paulino-dos-santos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/homenagem-a-luiz-paulino-dos-santos\/","title":{"rendered":"Homenagem a Luiz Paulino dos Santos"},"content":{"rendered":"<p>Sess\u00e3o Cl\u00e1ssicos do Real<br \/>\nHomenagem a Luiz Paulino dos Santos<\/p>\n<p>\u00cdndios Zor\u00f3: antes, agora e depois?<\/p>\n<p>A for\u00e7a ancestral e resistente dos povos ind\u00edgenas, bem como o projeto violento e persistente de exterm\u00ednio de seus indiv\u00edduos e culturas s\u00e3o t\u00e3o intrinsecamente fundadores da na\u00e7\u00e3o brasileira que a convoca\u00e7\u00e3o para revisitar ou retornar \u00e0s hist\u00f3rias e aos territ\u00f3rios dos \u00edndios do Brasil n\u00e3o \u00e9 inusual. E tem sido uma ocasi\u00e3o para o surgimento recente de importantes obras do document\u00e1rio brasileiro contempor\u00e2neo, obras guiadas pelo princ\u00edpio da retomada. \u00c9 o caso dos filmes de Divino Tserewah\u00fa e de boa parte dos realizadores ind\u00edgenas, para os quais o cinema \u00e9 um espa\u00e7o de resist\u00eancia pol\u00edtica e cultural. \u00c9 o caso ainda de Corumbiara e Mart\u00edrio, de Vincent Carelli, e de Serras da desordem, de Andrea Tonacci. Espa\u00e7os de conflitos primordiais, os territ\u00f3rios ind\u00edgenas desafiam tamb\u00e9m o tempo. Por isso, n\u00e3o parece ser por acaso que as terras ind\u00edgenas se apresentem, para o cinema brasileiro, como terreno de ressurgimentos e redescobertas, inclusive de seus cineastas. \u00c9 exatamente a\u00ed, na pot\u00eancia da retomada, onde reside a quest\u00e3o central do longa de retorno, em muitos sentidos, de Luiz Paulino dos Santos.<\/p>\n<p>Em \u00cdndios Zor\u00f3, antes, agora, e depois?, 30 anos depois de ter realizado Ikatena, o curta documental sobre os povos Zor\u00f3, e h\u00e1 20 anos distante do cinema, Luiz Paulino retorna para reencontrar os \u00edndios, devolver-lhes as imagens da d\u00e9cada de 80 e registrar os antigos personagens em suas transforma\u00e7\u00f5es. Seria poss\u00edvel dizer que o projeto de exterm\u00ednio dos \u00edndios, f\u00edsico e cultural, que est\u00e1 em curso h\u00e1 mais de 500 anos, e que se estende das catequeses \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o, oferece a for\u00e7a motriz para o percurso de Paulino. E se observarmos os filmes realizados nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas do Brasil e do mundo, veremos que o cinema \u00e9, nesses espa\u00e7os, talvez mais do que em qualquer outro, instrumento contra o desaparecimento \u2013 desaparecimento tanto de vidas quanto de modos de vida. N\u00e3o \u00e9 por acaso que antes de sua partida de volta \u00e0 aldeia Zor\u00f3, Luiz Paulino coloca em cena o poema-ode ao exterm\u00ednio dos amer\u00edndios, de autoria de Padre Anchieta, interrogando o monumento \u00e0 barb\u00e1rie colonial no centro do Rio de Janeiro. Ele revista tamb\u00e9m o mapa dos povos origin\u00e1rios de Kurt Nimuendaj\u00fa, essa impressionante cartografia do apagamento. O percurso do filme parece movido, portanto, por uma for\u00e7a de enfrentamento contra o projeto de exterm\u00ednio, material, cultural e espiritual, que segue em marcha at\u00e9 os dias de hoje, em renovadas formas.<\/p>\n<p>Mas dificilmente seria poss\u00edvel ignorar o que h\u00e1, antes disso, na intrigante abertura do filme, em que a imagem da terra em rota\u00e7\u00e3o \u00e9 embalada pela voz de Luiz Paulino, que evoca figuras crist\u00e3s e o som primordial hindu, forma de sintonia com a energia vibrat\u00f3ria do cosmos, o OM que ressoa sobre as imagens da floresta amaz\u00f4nica no final desta sequ\u00eancia inicial. Desde a abertura, j\u00e1 se enuncia, ent\u00e3o, a perspectiva absolutamente singular que dominar\u00e1 o filme, e que \u00e9 resultado de uma, como nos diz Luiz Paulino \u201cvontade xam\u00e2nica\u201d e de sua experi\u00eancia de vida. Assim, somos lan\u00e7ados no que se configurar\u00e1 como uma esp\u00e9cie de ensaio lit\u00fargico, para o qual o sincretismo oferece um princ\u00edpio est\u00e9tico, discursivo e \u00e9tico, e que faz o filme mover-se entre o assombro diante do risco de apagamento cultural dos \u00edndios e o desejo de fazer vibrar uma for\u00e7a espiritual contra os males \u201cde uma sociedade falsa e trai\u00e7oeira\u201d, \u201cdo progressismo nefasto\u201d, \u201cdo capitalismo injusto\u201d, para citar as express\u00f5es de Luiz Paulino.<\/p>\n<p>Diante da exuber\u00e2ncia de quest\u00f5es propostas pelo filme, chamam a aten\u00e7\u00e3o as conex\u00f5es entre os Zor\u00f3 e Luiz Paulino, o cinema e o tempo \u2013 o tempo desdobrado, entre passado, presente e futuro. A primeira forma de liga\u00e7\u00e3o entre esses quatro elementos abrigados em um mesmo espa\u00e7o (espa\u00e7o de conflito, n\u00e3o custa repetir) deriva do que considero o gesto fundador do filme: o ato de devolu\u00e7\u00e3o da imagem. Devolver uma imagem \u00e9 faz\u00ea-la operar entre tempos e sujeitos; \u00e9 oferec\u00ea-la ao outro que a habita e, ao mesmo tempo, a uma reabertura temporal. \u00c9 nesse jogo de tempos e olhares que o cinema pode atuar performativamente, fazendo ressurgir o passado no presente ou oferecendo ao presente uma perspectiva futura que est\u00e1 na revisita\u00e7\u00e3o corporal do passado. A\u00ed reside a pot\u00eancia pol\u00edtica deste dispositivo de devolver as imagens.<\/p>\n<p>Mas o que se desdobra do ato de devolver a imagem em \u00cdndios Zor\u00f3 parece ser algo de natureza um tanto diferente. No filme, h\u00e1 duas situa\u00e7\u00f5es marcantes de revisionamento das imagens de Ikatena, o filme anterior: a primeira delas acontece na Funasa, onde boa parte dos \u00edndios recebe tratamento m\u00e9dico; e a segunda, na aldeia, no que me pareceu ser um culto evang\u00e9lico. Nessa situa\u00e7\u00e3o, o cinema atua, em dois tempos, para materializar o conflito pol\u00edtico-hist\u00f3rico. Os vest\u00edgios da evangeliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o flagrados durante todo o filme, mas \u00e9 na resposta do chefe\/pastor \u00e0 exuber\u00e2ncia dos corpos e da tradi\u00e7\u00e3o trazidos de volta pelas imagens do passado que o projeto de evangeliza\u00e7\u00e3o aparece em sua forma mais violenta: \u201cNaquele tempo est\u00e1vamos muito perdidos. Muito longe de deus. N\u00f3s est\u00e1vamos adorando um deus falso\u201d &#8211; ele diz.<\/p>\n<p>James Clifford, antrop\u00f3logo americano, afirma que \u201co passado \u00e9 para as cosmologias ind\u00edgenas o lugar de onde se v\u00ea o futuro\u201d. A evangeliza\u00e7\u00e3o, por sua vez, como agente invasor, parece bloquear essa passagem entre os tempos e barrar a mirada para o futuro. E ent\u00e3o, seria este o fim dos tempos? H\u00e1 algo que resta? Uma das poss\u00edveis respostas para a pergunta pode estar naquela que me parece ser a sequ\u00eancia central deste filme a sua mais bela cena.<\/p>\n<p>Paulino retorna ao local das imagens mais retomadas de Ikatena, o rio, que no filme antigo \u00e9 povoado por crian\u00e7as felizes e pululantes e borboletas amarelas. O rio est\u00e1 ainda l\u00e1. Est\u00e3o tamb\u00e9m as borboletas. Mas as crian\u00e7as se foram. S\u00e3o hoje os adultos evangelizados. A montagem, que me arrisco a chamar de transcendental, e que agilmente constr\u00f3i elos l\u00f3gicos e sensoriais, encarrega-se, ent\u00e3o, de operar passagens entre os tempos, de materializar a mem\u00f3ria, de fazer as crian\u00e7as conviverem com o cineasta. Mas \u00e9 no corpo de Paulino que o atravessamento de temporalidades performa-se na sua pot\u00eancia m\u00e1xima, quando, de repente, ele mergulha no rio, repetindo e atualizando o gesto das crian\u00e7as de ontem. Paulino mergulha para o mundo ind\u00edgena desaparecido, mas imortalizado em seu filme Ikatena, e re-inscreve-se assim no seu pr\u00f3prio cinema. Este s\u00fabito, simples e exuberante mergulho no rio me parece encarnar o desejo de retomada do modo de vida ind\u00edgena tradicional, mas sobretudo materializa o retorno imersivo do cineasta ao cinema. Assim, devolver uma imagem finalmente significa receber de volta o cinema, ou melhor, retomar e o cinema como modo de vida.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que justifica a centralidade do corpo, da voz e da espiritualidade de Paulino no filme. Os conflitos entre as temporalidades e culturas, as quest\u00f5es pol\u00edticas e hist\u00f3ricas que se sobrep\u00f5em no espa\u00e7o atravessado pelo filme s\u00e3o catalizados pelos percursos f\u00edsicos e espirituais de Luiz Paulino, e convergem para seu corpo. \u00c9 ele que mobiliza e faz vibrar tanto as contradi\u00e7\u00f5es, bastante presentes no filme quanto as formas de conviv\u00eancia entre diferen\u00e7as, em seus movimentos sincr\u00e9ticos. Resta em seu \u00faltimo filme, assim, a intensidade de sua presen\u00e7a, m\u00edstica e, agora, m\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Amaranta Cesar<\/em><\/p>\n<p>Dia 10\/09, \u00e0s 14h<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1657 alignleft\" src=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Zor.jpg\" alt=\"\" width=\"437\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Zor.jpg 1920w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Zor-300x169.jpg 300w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Zor-768x432.jpg 768w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2017\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Zor-1024x576.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/>\u00cdndio Zor\u00f3: Antes hoje e depois?<br \/>\nBrasil, 2016, 70 min.<br \/>\nDe Luiz Paulino dos Santos<\/p>\n<p>H\u00e1 trinta anos, o diretor Luiz Paulino dos Santos realizou um curta-metragem sobre os costumes e pr\u00e1ticas dos \u00edndios Zor\u00f3. Hoje, ele retorna ao local para exibir, pela primeira vez, seu filme aos \u00edndios, e descobrir o que mudou neste tempo. O cineasta encontra um grupo transformado pela tecnologia, pelo acesso aos bens de consumo e pela assimila\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sess\u00e3o Cl\u00e1ssicos do Real Homenagem a Luiz Paulino dos Santos \u00cdndios Zor\u00f3: antes, agora e depois? 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