{"id":2106,"date":"2015-09-03T13:45:07","date_gmt":"2015-09-03T16:45:07","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/?p=2106"},"modified":"2015-09-03T13:53:00","modified_gmt":"2015-09-03T16:53:00","slug":"entrevista-com-camila-camila-diretora-de-ana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/entrevista-com-camila-camila-diretora-de-ana\/","title":{"rendered":"Entrevista com Camila Camila, diretora de \u201cAna\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\"><div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\"><div class=\"wpb_wrapper\">\n\t<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n\t\t<div class=\"wpb_wrapper\">\n\t\t\t<p><a href=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/pedromaia-14.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2105\" src=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/pedromaia-14.jpg\" alt=\"pedromaia-14\" width=\"851\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/pedromaia-14.jpg 851w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/pedromaia-14-300x200.jpg 300w, https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/pedromaia-14-787x524.jpg 787w\" sizes=\"(max-width: 851px) 100vw, 851px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em entrevista, a diretora Camila Camila, que concorre na Mostra Competitiva do VI CachoeiraDoc com o document\u00e1rio \u201cAna\u201d, fala sobre mem\u00f3ria, passado e cinema.<\/p>\n<p><strong>Qual o maior desafio de falar do passado sem recorrer as palavras?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o sensorial com os objetos, de voc\u00ea conseguir organizar um cen\u00e1rio que toque outro. Porque \u201cAna\u201d tem a quest\u00e3o de que n\u00e3o sou eu que estou lidando com aquelas mem\u00f3rias diretamente na cena, n\u00e9? Um corpo est\u00e1 presente. Ent\u00e3o, al\u00e9m de tratar das mem\u00f3rias sem necessariamente usar a fala, eu ainda tenho que provocar essas mem\u00f3rias num outro que n\u00e3o as viveu, que n\u00e3o as escuta desde a inf\u00e2ncia, aquelas em espec\u00edfico. A\u00ed, acho que tem uma rela\u00e7\u00e3o mais de escolha. Em \u201cAna\u201d funcionou, porque teve um projeto de pesquisa de quem vai trabalhar nesse filme e que tipo de p\u00fablico vamos tocar tamb\u00e9m. Por se tratar de mulheres, \u00e0s vezes, n\u00e3o falar diretamente com palavras toca muito, porque cada mulher tem uma identifica\u00e7\u00e3o diretamente com o seu corpo. Ent\u00e3o, por mais que ela n\u00e3o escute as palavras de opress\u00e3o, de ang\u00fastia ou de liberta\u00e7\u00e3o, tem mem\u00f3rias sensoriais muito pr\u00f3ximas as que buscamos. O maior desafio \u00e9 conseguir chegar na sensorialidade do outro, qual outro voc\u00ea quer tocar e saber como toc\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Falar sobre mem\u00f3ria familiar usando performance e uma mise-en-sc\u00e8ne apurada deixa \u201cAna\u201d na fronteira entre o document\u00e1rio e a fic\u00e7\u00e3o. Como esse processo dialoga com as tend\u00eancias contempor\u00e2neas do document\u00e1rio que utilizam cada vez mais isso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu at\u00e9 brinco na sinopse que a mem\u00f3ria \u00e9 um instrumento de fic\u00e7\u00e3o, que foi bem quando eu estava pesquisando isso do cinema h\u00edbrido. Essa coisa de prender a verdade e a realidade num mesmo la\u00e7o \u00e9 muito complexo, porque cada olho \u00e9 um olho, cada \u00edris \u00e9 uma \u00edris, cada corpo \u00e9 um corpo. Ent\u00e3o, ao prender o filme a uma formula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 ali lhe impondo algo, voc\u00ea acaba n\u00e3o tendo o princ\u00edpio b\u00e1sico de que o document\u00e1rio tem que lhe ultrapassar e voc\u00ea deve ultrapass\u00e1-lo tamb\u00e9m. Acho que o mais interessante do document\u00e1rio \u00e9 essa intera\u00e7\u00e3o. Para \u201cAna\u201d, pensamos muito nessa rela\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea n\u00e3o s\u00f3 no document\u00e1rio, mas tamb\u00e9m nas artes em geral, que \u00e9 a a\u00e7\u00e3o da performance, a sociedade atrav\u00e9s do corpo e o espa\u00e7o em di\u00e1logo. &#8211; quando pensamos nesse document\u00e1rio contempor\u00e2neo que quer trabalhar o corpo, que quer trabalhar as express\u00f5es&#8230; O document\u00e1rio contempor\u00e2neo tem puxado muito esse mix da linguagem cinematogr\u00e1fica com as outras artes. O mundo respira arte e se o document\u00e1rio capta o mundo, ele tamb\u00e9m tem que captar as suas express\u00f5es.<\/p>\n<p>A performance e a rela\u00e7\u00e3o com o corpo \u00e9 o que est\u00e1 mais em evid\u00eancia. As mem\u00f3rias s\u00e3o sensoriais e corporais e, para isso, pegamos um pouco da rela\u00e7\u00e3o com a performance e trabalhamos com outro corpo, o de uma atriz. Utilizamos a ideia de performance como programa. A performance em si \u00e9 um acontecimento, mas para isso existe um programa. Busca-se uma pesquisa do que aquele acontecimento em si pode vir a provocar e o que o nutre. \u00c9 o que tentamos fazer em \u201cAna\u201d: buscar quest\u00f5es e anseios para a constru\u00e7\u00e3o desse programa e, a partir dele, desenvolver o filme e a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma atriz expressa as suas mem\u00f3rias e de sua fam\u00edlia. Ent\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 uma ponte entre as mem\u00f3rias familiares e \u00edntimas e a atriz convidada. Como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o da personagem?<\/strong><\/p>\n<p>Desde o primeiro momento que pensei em contar as hist\u00f3rias das mulheres da minha fam\u00edlia, n\u00e3o queria estar no filme. Ent\u00e3o, inicialmente, pensei muito em trabalhar a atriz social &#8211; n\u00e3o que a Lu\u00edsa n\u00e3o seja uma atriz social -, mas de pegar na raiz do conceito: que \u00e9 reinterpretar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, o que Jean Rouch faz. Eu queria trabalhar com minha m\u00e3e e minhas tias, mas fui desapegando dessas hist\u00f3rias, porque elas n\u00e3o gostaram da ideia de se interpretarem. Da\u00ed, veio a ideia de buscar o corpo de uma atriz para isso, obviamente uma mulher. Por tratar dessa alteridade, eu precisava de uma mulher que tivesse contextos pr\u00f3ximos aos meus: contextos de ra\u00e7a, de classe social, de como a fam\u00edlia \u00e9 composta. A ex-namorada de Let\u00edcia, que \u00e9 a minha esposa, \u00e9 atriz e tem um trabalho de performance sobre g\u00eanero e expressividade do corpo. Assisti a um filme dela e falei \u201cPoxa!\u201d. Quando olhei as imagens, ela \u00e9 id\u00eantica a minha tia mais velha quando jovem, e isso \u00e9 uma das coisas do encontro que talvez a teoria n\u00e3o explique: \u00e9 quando voc\u00ea encontra algu\u00e9m que, al\u00e9m de tudo, tem uma est\u00e9tica muito pr\u00f3xima a sua.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a trabalhar com ela e como no nosso programa n\u00e3o tinha a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o existia uma decupagem de a\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o fal\u00e1vamos \u201cLu\u00edsa faz isso\u201d, \u201cLu\u00edsa faz aquilo\u201d. Ao mesmo tempo, queria que ela tamb\u00e9m relatasse hist\u00f3rias. Eu busquei muito mais dela para ver o que t\u00ednhamos pensando para a hist\u00f3ria, os elementos que somavam, o que mais tinha de pr\u00f3ximo. Assim, fizemos um programa com as hist\u00f3rias eleitas da minha fam\u00edlia e hist\u00f3rias que eram comuns ao g\u00eanero feminino, comuns \u00e0s mulheres que nos rodeavam. Esse roteiro s\u00f3 tinha um fio narrativo, de como se uma \u00fanica personagem tivesse transitado dos 8 aos 45 anos. Tamb\u00e9m passei as minhas fotografias de fam\u00edlia para a atriz e a coloquei em contato com a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Como eu queria a rea\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da atriz para o document\u00e1rio acontecer (que \u00e9 esse \u00edmpeto da exist\u00eancia naquele minuto datado), ela n\u00e3o viu a loca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o viu os objetos, n\u00e3o viu nada. A primeira vez que ela entrou no cen\u00e1rio, entrou com o figurino da personagem e com a loca\u00e7\u00e3o pronta. Ent\u00e3o, ela passou a existir naquele mundo. N\u00e3o tinha pr\u00e9via do que era nada: ela n\u00e3o sabia com eram as cores e os objetos; n\u00e3o teve ensaio, n\u00e3o teve nada. N\u00f3s pass\u00e1vamos a cena sem nenhuma indica\u00e7\u00e3o minha: \u201cLu\u00edsa, esse \u00e9 o espa\u00e7o, essas s\u00e3o as hist\u00f3rias\u201d. Era uma a\u00e7\u00e3o livre mesmo, um fluxo livre.<\/p>\n<p>No segundo take, eu ia tratando a atriz como a personagem e fazendo junto com ela. A minha dire\u00e7\u00e3o foi muito interativa, quando a a\u00e7\u00e3o estava acontecendo, eu estava lidando com Ana e n\u00e3o com Lu\u00edsa. \u201cAna o seu caf\u00e9!\u201d. \u201cAna o fogo!\u201d. \u201cAna a televis\u00e3o t\u00e1 ligada!\u201d. Sabe? A\u00e7\u00f5es intera\u00e7\u00f5es diretas com ela. Quando ela pulava a janela, eu pulava junto, para que ela tivesse a no\u00e7\u00e3o expressiva do meu corpo, com eu reagia.<\/p>\n<p>Texto e entrevista: Ulisses Arthur<br \/>\nFoto: Pedro Maia<\/p>\n\n\t\t<\/div>\n\t<\/div>\n<\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, a diretora Camila Camila, que concorre na Mostra Competitiva do VI CachoeiraDoc com o document\u00e1rio \u201cAna\u201d, fala sobre mem\u00f3ria, passado e cinema.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2105,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,46],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2106"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2106"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2106\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2107,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2106\/revisions\/2107"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}