{"id":1766,"date":"2015-08-16T20:27:58","date_gmt":"2015-08-16T23:27:58","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/?p=1766"},"modified":"2015-08-17T08:41:30","modified_gmt":"2015-08-17T11:41:30","slug":"o-parto-de-um-outro-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/o-parto-de-um-outro-mundo\/","title":{"rendered":"O parto de um outro mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Texto de Ana Rosa Marques <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma floresta. Um templo. Uma sala de aula. Um div\u00e3. \u00c0s vezes um ringue. Certamente uma \u00e1gora. Viajamos entre todos esses espa\u00e7os no processo de curadoria da mostra competitiva do CachoeiraDoc. Desbravamos milhares de imagens e sons das centenas de filmes que nos foram enviados de todo o Brasil. Curiosos, atentos e respeitosos com tudo o que in\u00fameros cineastas e os seres por eles filmados nos tinham a dizer e mostrar. Conhecemos com eles muitas maneiras de pensar, amar, existir e agir. Aprofundamos nossa capacidade de sentir, compreender e discutir sobre o cinema, o mundo e n\u00f3s mesmos. E democraticamente chegamos a esse impressionante conjunto de filmes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil definir um cinema que mobiliza tantas emo\u00e7\u00f5es e pensamentos. Filmes n\u00e3o devem ser reduzidos a palavras. Mas talvez algumas delas possam expressar o que sentimos e aprendemos com eles. E uma primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 lutar. Em <strong>Audi\u00eancia P\u00fablica?<\/strong> e <strong>Ressurgentes \u2013 um fime de a\u00e7\u00e3o direta<\/strong>, cidad\u00e3os na frente ou atr\u00e1s das c\u00e2meras, enfrentam empreiteiros, pol\u00edcia, pelegos, pol\u00edticos e empres\u00e1rios para defender o bem comum, um conceito abominado pelo capital e pelos donos do poder, a cada dia mais vorazes. Contra eles,\u00a0 um cinema urgente e feito de maneira coletiva. Que n\u00e3o s\u00f3 se insurge, mas age.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o document\u00e1rio, g\u00eanero historicamente ligado a um compromisso humanista e de engajamento com o mundo poderia n\u00e3o reagir ? E quando essa opress\u00e3o \u00e9 empreendida impunemente pelo pr\u00f3prio Estado como vemos no longa <strong>Retratos de Identifica\u00e7\u00e3o<\/strong> e no curta <strong>Ocupa\u00e7\u00e3o? <\/strong>No primeiro, o olhar documental atravessa o tempo e v\u00ea que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir um presente se os crimes praticados no passado continuam impunes. No segundo, s\u00e3o as ruas de uma favela brasileira o caminho para esse olhar, que enxerga riqueza e beleza no cotidiano do local, para al\u00e9m da for\u00e7a invasora e violenta das tropas militares a servi\u00e7o do Governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em defesa da nossa hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e afetos, o cinema corr\u00f3i para construir. Em <strong>Nova Dubai<\/strong>, contra os grandes empreendimentos imobili\u00e1rios que emparedam subjetividades, desfiguram espa\u00e7os e modos de vida, o corpo humano revida. A tela torna-se uma extens\u00e3o dos punhos cerrados e esmurra. Mas ao mesmo tempo questiona-o: o que sente esse corpo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutar o corpo \u00e9 algo que o cinema hegem\u00f4nico pouco fez. Muito pelo contr\u00e1rio. Com olhar voyeur\u00edstico ou repressor, aprisionou-o em representa\u00e7\u00f5es e discursos tir\u00e2nicos. Talvez n\u00e3o seja \u00e0 toa que o som, seja da voz em <strong>Eu travesti ?<\/strong> e <strong>A paix\u00e3o<\/strong> <strong>de JL<\/strong> como da m\u00fasica em <strong>Sem t\u00edtulo # 1: Dance of Leitfossil<\/strong> ecoem o desejo de liberdade e amor desses corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo que n\u00e3o cala contra comportamentos e expectativas codificados. Senhor ou senhora de si. \u00c9 assim que vemos os personagens de <strong>Ana<\/strong>, <strong>A loucura est\u00e1 entre n\u00f3s<\/strong>, <strong>Meio fio<\/strong> e <strong>Noite<\/strong>. Todos dirigidos e protagonizados por mulheres. Afirmam um corpo e um olhar que sempre foram sujeitados, objetificados. Assumir o controle das narrativas sobre eles \u00e9 portanto um gesto pol\u00edtico. Mas o que os une \u00e9 muito mais que uma quest\u00e3o de g\u00eanero, \u00e9 uma quest\u00e3o de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebemos o document\u00e1rio tamb\u00e9m como uma grande alquimia que combina e transforma os elementos da pr\u00f3pria realidade. Um campo privilegiado de cria\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o de novas vozes, abordagens, dispositivos de escrita e de rela\u00e7\u00f5es entre quem filma e \u00e9 filmado. Como os curtas reunidos em uma sess\u00e3o heterog\u00eanea esteticamente, mas conectados por um esp\u00edrito que mira o mundo com um frescor como se fosse pela primeira vez que o visse. \u00c9 o que nos transmite <strong>A \u00faltima das Minas<\/strong>, <strong>Ex\u00edlias<\/strong>, <strong>Ruim \u00e9 ter que<\/strong> <strong>trabalhar <\/strong>e <strong>Virgindade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inventemos e reiventemos ent\u00e3o a nossa rela\u00e7\u00e3o com as imagens e sons, muitas vezes desgastada por uma cultura t\u00e3o saturadas deles. Em <strong>A Festa e os c\u00e3es<\/strong>, as imagens fixas das fotografias e a m\u00fasica reativam uma mem\u00f3ria de si, de uma gera\u00e7\u00e3o e de um lugar. Em <strong>Mais do que eu possa me reconhecer<\/strong>, as imagens ganham o movimento dos arquivos de v\u00eddeo e as can\u00e7\u00f5es d\u00e3o volume a uma narrativa que tece tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre personagem e cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja preciso sermos crian\u00e7a, \u00e1rvore ou passarinho para melhorarmos nosso olhar e ouvir. E que a sabedoria dos xam\u00e3s de <strong>Urihi Haromatipe \u2013 Curadores da Terra Floresta <\/strong>e dos meninos e meninas de <strong>O mar, a mata e a humanidade<\/strong> e <strong>No caminho com M\u00e1rio <\/strong>ajude a tratar esse planeta t\u00e3o enfermo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa principal maneira de agradecer aos t\u00edtulos aqui citados e a todos aqueles que por um motivo ou outro aqui n\u00e3o est\u00e3o \u00e9 compartilhar com o nosso p\u00fablico o que\u00a0 aprendemos nessa jornada. Porque o saber \u00e9 um bicho que precisa de movimento e troca para reproduzir. E assim parir um mundo mais humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma floresta. Um templo. Uma sala de aula. Um div\u00e3. \u00c0s vezes um ringue. Certamente uma \u00e1gora. 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