{"id":1762,"date":"2015-08-16T20:23:40","date_gmt":"2015-08-16T23:23:40","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/?p=1762"},"modified":"2015-08-19T20:26:26","modified_gmt":"2015-08-19T23:26:26","slug":"mostra-perspectivas-do-espaco-e-imersoes-sensoriais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/mostra-perspectivas-do-espaco-e-imersoes-sensoriais\/","title":{"rendered":"Mostra Perspectivas do espa\u00e7o e imers\u00f5es sensoriais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mostra Perspectivas do espa\u00e7o e imers\u00f5es sensoriais: os filmes do Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Texto de Amaranta Cesar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Sensory Ethnography Lab<\/em> \u2013 SEL (Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial) \u00e9 um espa\u00e7o de experimenta\u00e7\u00e3o da Universidade de Harvard que integra professores e estudantes de p\u00f3s-gradu\u00e7\u00e3o dos campos da antropologia, do cinema e das artes. Conforme sua autodefini\u00e7\u00e3o, o SEL promove inovadoras combina\u00e7\u00f5es entre est\u00e9tica e etnografia para chamar aten\u00e7\u00e3o \u201cpara as muitas dimens\u00f5es do mundo, tanto animado quanto inanimado, que dificilmente podem ser percept\u00edveis por formula\u00e7\u00f5es verbais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A etnografia audiovisual praticada pelo grupo revela-se menos como instrumento de comunica\u00e7\u00e3o de conhecimentos pr\u00e9-fabricados do que como uma corporal e intensa atividade de descoberta, capaz de provocar novos conhecimentos atrav\u00e9s das pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias de fatura dos filmes. O pressuposto comum do qual parecem partir as obras produzidas no ambiente do laborat\u00f3rio \u00e9 o de que \u201co filme, mais do que qualquer outra forma de arte, tem o privilegio de usar a experi\u00eancia para expressar a experi\u00eancia\u201d, nas palavras de seu diretor, Lucien-Castaign Taylor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 pela partilha de uma experi\u00eancia, antes de tudo sensorial, que espectador e realizador s\u00e3o colocados pelos filmes aqui reunidos no mesmo compasso de descoberta. Seja em um navio de pesca industrial, no telef\u00e9rico que leva a um templo hindu, em um subsolo que se transforma em mesquita em um bairro chin\u00eas de Nova Iorque ou em um complexo de reciclagem de lixo, a imers\u00e3o sensorial no espa\u00e7o &#8211; para a qual \u00e9 fundamental o not\u00e1vel trabalho sonoro dos filmes &#8211; restaura a reciprocidade entre os espectadores, os sujeitos que filmam e tamb\u00e9m aqueles que s\u00e3o filmados.\u00a0 Em maior ou menor grau de intensidade, em todas obras que conformam este conjunto, trata-se de re-associar n\u00e3o apenas o observado e observador (tarefa da etnografia de Jean Rouch, por exemplo), mas o observado, os observadores (os que fazem e os que recebem os filmes) e a mat\u00e9ria fenomenol\u00f3gica do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imers\u00e3o sensorial que d\u00e1 vida aos filmes do Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial reunidos nessa mostra n\u00e3o corresponde a uma explora\u00e7\u00e3o meramente pl\u00e1stica ou po\u00e9tica das pr\u00e1xis corporais e dos tecidos \u2013 cultural, pol\u00edtico e hist\u00f3rico &#8211;\u00a0 do mundo. N\u00e3o h\u00e1 apenas descri\u00e7\u00e3o, abstra\u00e7\u00e3o e observa\u00e7\u00e3o; h\u00e1 reflex\u00e3o e, mais do que isso, especula\u00e7\u00e3o. O que essa mostra sint\u00e9tica parece bem demonstrar \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma est\u00e9tica etnogr\u00e1fica que superou o olhar opositor da antropologia visual cl\u00e1ssica atrav\u00e9s da maneira como se combina na mat\u00e9ria audiovisual talhada a sensualidade do olhar com a reflex\u00e3o te\u00f3rica n\u00e3o verbal. Tal combina\u00e7\u00e3o est\u00e1 intimamente associada ao trabalho de incorpora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o presente nos filmes. Nessas obras, os gestos de composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se contentam em manejar corpo e \/no espa\u00e7o: o espa\u00e7o torna-se corpo, para que no campo de experi\u00eancia do espectador o corpo possa restituir as tens\u00f5es, conex\u00f5es e amplitudes do espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, atrav\u00e9s de perspectivas que se descolam dos sujeitos para (se) incorporar nos espa\u00e7os \u2013 a caverna de reciclagem (<em>Fluxo \u00fanico)<\/em>, o monstro-navio de pesca (<em>Leviat\u00e3)<\/em>, as cabines voadoras m\u00edsticas (<em>Manakamana),<\/em> o por\u00e3o sagrado (<em>Na Broadway)<\/em>, o farol-seiva de planta (<em>As Figuras Gravadas na Faca com a Seiva das Bananeiras)<\/em>, o trem-cavalo de ferro (<em>O minist\u00e9rio das ferrovias)-<\/em>, uma conjun\u00e7\u00e3o entre cultura, natureza e tecnologia \u00e9 tecida, apontando para imbricamentos reveladores n\u00e3o apenas das interfer\u00eancias do capital e da modernidade nas cidades, nos corpos e nos modos de vida (como se observa em <em>Na Boradway, Manakamana <\/em>e<em> O minist\u00e9rio das ferrovias)<\/em>, mas, principalmente, dos impactos desastrosos do antropoceno (termo cunhado pelo metere\u00f3logo Paul Crutzen que designa uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica caracterizada pelo impacto irrevers\u00edvel da humanidade sobre os sistemas ecol\u00f3gicos do planeta) sobre a Terra (como sugerem provocadoramente as imagens e sons de <em>Fluxo \u00fanico <\/em>e, sobretudo,<em>\u00a0 <\/em>de<em> Leviat\u00e3).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistir aos filmes do Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial em seu conjunto pode ser uma experi\u00eancia de desnaturaliza\u00e7\u00e3o da natureza, desautomatiza\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas, descoisifica\u00e7\u00e3o das coisas que talvez implique na salutar descentraliza\u00e7\u00e3o do homem. No limite, a provoca\u00e7\u00e3o perceptiva feita por estes filmes \u2013 ouvir e ver com outros olhos e ouvidos, olhos e ouvidos dos espa\u00e7os, das carnes, das coisas e animais do mundo \u2013 pode corresponder a uma interroga\u00e7\u00e3o desconcertante sobre o antropocentrismo: sua necess\u00e1ria desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confira os <a href=\"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/mostras-especiais\/1669-2\/\">hor\u00e1rios \u00a0e sinopses desta mostra<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saiba mais sobre os filmes do Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46,7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1762"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1762"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1762\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1938,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1762\/revisions\/1938"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1762"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1762"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1762"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}