{"id":2023,"date":"2015-08-27T17:04:16","date_gmt":"2015-08-27T20:04:16","guid":{"rendered":"http:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/?page_id=2023"},"modified":"2015-08-27T17:05:10","modified_gmt":"2015-08-27T20:05:10","slug":"ver-e-saber","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cachoeiradoc.com.br\/2015\/o-festival\/ver-e-saber\/","title":{"rendered":"Ver e saber"},"content":{"rendered":"<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\"><div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\"><div class=\"wpb_wrapper\"><h4 class=\"box_header\">Amaranta Cesar<\/h4>\n\t<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n\t\t<div class=\"wpb_wrapper\">\n\t\t\t<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o deixe a escola acabar com seu desejo de aprender\u201d, era o conselho grafado por um mestre an\u00f4nimo em um muro da cidade. Quando a li, faziam exatos 50 dias que os professores mantinham as aulas suspensas porque entendiam que era assim que podiam defender a escola (talvez dela mesma) e o direito (p\u00fablico e gratuito) de aprender. Um ano antes, Evelyn cumpria o ritual de forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, apresentando um trabalho sobre cinema. Durante algum tempo, ela tinha se dedicado a entender os movimentos e as belezas de dois filmes, que eram, na verdade, cartas &#8211; ao mundo. O primeiro tinha sido feito por uma mulher da Casamance, no Senegal. O outro, por crian\u00e7as Ikpeng, no Brasil.\u00a0 Enquanto ela agarrava palavra por palavra para dizer de suas descobertas sobre o modo como as crian\u00e7as ind\u00edgenas e a mulher africana mostravam suas aldeias ao mundo, a av\u00f3 de Evelyn, que nunca esteve nem na escola, nem na universidade, nem no cinema, que foi educada nos terreiros sagrados do Rec\u00f4ncavo, ouvia tudo muito emocionada, com olhos brilhantes que cintilavam como o tecido de seu vestido alinhado. Naquele momento, em que estavam ali reunidas mulheres e crian\u00e7as de muitas aldeias, a escola, ou a universidade, era tamb\u00e9m um quintal, um terreiro, um rio, um corpo, uma \u00e1rvore, uma floresta. Hoje, preparamos uma festa para celebrar o desejo de aprender, para a qual s\u00e3o convidados os conhecimentos descobertos por Evelyn, com ajuda dos professores, e aqueles recolhidos e guardados por sua av\u00f3 no solo do Rec\u00f4ncavo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O VI CachoeiraDoc quer ser essa ocasi\u00e3o festiva onde o cinema &#8211; o document\u00e1rio \u2013 assenta seu terreno de descobertas e aprendizagens, afirmando sua voca\u00e7\u00e3o para mobilizar e renovar desejos, acessando e entranhando-se na sabedoria dos corpos e dos espa\u00e7os mais diversos e dispersos.\u00a0 E se o document\u00e1rio pode ser festejado como um amplo campo de aprendizagem \u00e9 porque seus limites institucionais n\u00e3o s\u00e3o jamais definidos por completo, \u00e9 porque suas portas est\u00e3o e estar\u00e3o sempre escancaradas \u00e0 vida &#8211; talvez seja justamente essa a li\u00e7\u00e3o que ele tenha para dar \u00e0 escola, \u00e0 universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de que o document\u00e1rio \u00e9 territ\u00f3rio f\u00e9rtil de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de conhecimento atravessa toda a programa\u00e7\u00e3o desta sexta edi\u00e7\u00e3o do CachoeiraDoc. A <em>Mostra Competitiva Nacional<\/em>\u00a0 convoca olhares e ouvidos para as m\u00faltiplas dimens\u00f5es dos dilemas e das lutas do Brasil contempor\u00e2neo, bem como para o vigor dos corpos e dos esp\u00edritos \u2013 da floresta, dos \u00edndios, dos oper\u00e1rios, dos mestres de matriz africana, dos jovens insurgentes e ressurgentes \u2013 que desafiam o pa\u00eds a aprender a ser outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os espa\u00e7os institucionais que t\u00eam buscado conex\u00f5es inspiradoras entre educa\u00e7\u00e3o e cinema est\u00e3o representados no <em>VI Ciclo de Confer\u00eancias: o cinema e os desafios do real,<\/em> que ser\u00e1 dedicado ao <em>Grupo Po\u00e9ticas da Experi\u00eancia<\/em> da UFMG, cujas pesquisas t\u00eam prestado vigorosa contribui\u00e7\u00e3o ao campo do document\u00e1rio contempor\u00e2neo; na <em>Mostra Cl\u00e1ssicos do Real,<\/em> que render\u00e1 homenagem ao decano professor, cineasta e fundador da Jornada de Cinema da Bahia, Guido Ara\u00fajo, pela sua fundamental contribui\u00e7\u00e3o para que os festivais de cinema sejam reconhecidos, neste estado, como importante ocasi\u00e3o de (re)forma\u00e7\u00e3o; e nas <em>Mostras Especiais &#8211;<\/em> <em>Mostra Soy Cine: os filmes da Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de Los Ba\u00f1os, <\/em>e <em>Mostra Perspectivas do espa\u00e7o e imers\u00f5es sensoriais: os filmes do Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os filmes da escola de cinema de Cuba, a \u201cescola de todos os mundos\u201d, regidos pela filosofia do \u201caprender fazendo, fazer ensinando\u201d, apontam para o cinema como uma pr\u00e1tica de atualiza\u00e7\u00e3o da utopia e de conviv\u00eancia intercultural, as obras do <em>Laborat\u00f3rio de Etnografia Sensorial, <\/em>da Universidade de Harvard, lan\u00e7am uma provoca\u00e7\u00e3o perceptiva: ouvir e ver com outros olhos e ouvidos, olhos e ouvidos dos espa\u00e7os, das carnes, das coisas e animais do mundo. Provoca\u00e7\u00e3o esta que pode corresponder a uma interroga\u00e7\u00e3o desconcertante sobre o antropocentrismo, \u00e0 necess\u00e1ria desconstru\u00e7\u00e3o da humanidade como centro do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste est\u00e1gio geol\u00f3gico em que os impactos do homem sobre os sistemas ecol\u00f3gicos da Terra j\u00e1 s\u00e3o irrevers\u00edveis, \u00e9poca que se convencionou chamar de antropoceno,\u00a0 \u00e9 urgente aprender com os \u00edndios: se h\u00e1 uma sede para o saber, ela s\u00f3 pode ser a pr\u00f3pria Terra, em sua Natureza. E \u00e9 por acreditar que a indianidade \u00e9 um projeto de futuro para toda a humanidade que receberemos o povo Tupinamb\u00e1, da Bahia, na sess\u00e3o de abertura deste VI CachoeiraDoc para festejar com eles, o processo de retomada \u2013 retomada de suas terras, de seus encantados, de um modo de vida, enfim, que pode nos ensinar, entre muitas outras coisas, a sobreviver neste planeta.<\/p>\n\n\t\t<\/div>\n\t<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\"><div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\"><div class=\"wpb_wrapper\"><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Amaranta Cesar \u201cN\u00e3o deixe a escola acabar com seu desejo de aprender\u201d, era o conselho grafado por um mestre an\u00f4nimo em um muro da cidade. 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